Zibia

Foto paulo Vitale

Recentemente, contrariei a recomendação do meu espírito protetor – que era de não entrar em polêmicas desnecessárias – ao me deparar com diversos comentários sobre uma reportagem publicada pela Revista IstoÉ a respeito da médium Zibia Gasparetto.

Se há algo capaz de unir os mais diversos segmentos espíritas é a ojeriza com que se trata àqueles que deixaram o Espiritismo. Waldo Vieira e Zibia Gasparetto são dois bons exemplos disso.

No caso de Zibia, a crítica mais comum é o ganho financeiro com suas obras. É criticada duramente por ser uma médium que praticamente vive da sua faculdade.

Sabemos que, no Espiritismo, há uma recomendação, que se fixou, ao longo do tempo, em forma de “lei de trabalho”, com a qual concordo inteiramente, que é a gratuidade da prática mediúnica. Isto é: ninguém deve vender a mediunidade ou seus frutos.

Zibia começou no Espiritismo e depois resolveu trilhar seu próprio caminho. Há anos não se define como espírita. A sua busca por uma espiritualidade independente parece ferir mortalmente algumas pessoas. Parece que a livre caminhada dela, para essas pessoas, é a própria negação da veracidade do Espiritismo, que tanto defendem em sua máxima “pureza”…

No debate a que me referi, meus pontos foram, basicamente, os seguintes:

a)    Os livros de Zibia fazem bem às pessoas que os leem (razão pela qual as vendas são altas);

b)    Através destes livros muitas pessoas buscam os Centros Espíritas.

Eu nunca li um livro dela inteiro. Li trechos daqui e dali. E não os li porque não gostei de nenhum. Mas, bem, gosto é algo pessoal, não é? Certo que, se os leitores dela pensassem o mesmo que eu, ela não seria uma autora bem sucedida, certo? Portanto, o fato de eu não gostar de um livro não pode e não deve implicar em simples repulsa ao mesmo. Isto é cegueira.

Depois, é notório e óbvio que muitas pessoas buscam o Centro Espírita pela primeira vez após ler um de seus livros. Para essas pessoas, o livro foi o elo de proximidade com alguma organização espírita.

Ao dizer estas coisas, estou incentivando a leitura de suas obras? Estou dizendo que seus livros são espíritas ou que estão de acordo com o Espiritismo? Estou dizendo que é natural e saudável? Não! Estou, simplesmente, dizendo: é isto que acontece. Ponto.

Parte das críticas a esses meus dois argumentos foram, justamente, dizendo que tais livros não ensinam nada de espiritismo, que afastam as pessoas de uma boa compreensão dos conceitos Kardecianos, etc.

Bem, será que todos os espíritas querem ser catedráticos em Kardec? Será que todos estão interessados em pormenores doutrinários? Será que, para ter uma boa vivência espírita, é preciso viver em pé de guerra com os demais autores? Será que estaríamos discutindo sobre isso hoje se não fossem esses autores que, através do tempo, bem ou mal, desta ou daquela forma, ajudaram a manter a chama do Espiritismo vivo no Brasil?

Bom, vamos imaginar a seguinte situação: uma pessoa leu um livro de Zibia Gasparetto e resolveu, por curiosidade, buscar um Centro Espírita. Lá chegando, irá informar sobre essa leitura. Se for recebida por algum fundamentalista, o mesmo irá se coçar todo de vontade e pode mesmo começar a inundar sua cabeça com picuinhas do doutrinário x antidoutrinário, como frequentemente se vê no Orkut e no Facebook, e isso normalmente com a delicadeza de um rinoceronte…

Não vamos nos esquecer: é a primeira vez que a pessoa pisa num centro. E como é recebida? Com uma tempestade de confusão.

Agora, imaginemos a seguinte situação: uma pessoa leu um livro de Zibia Gasparetto e resolveu, por curiosidade, buscar um Centro Espírita. Lá chegando, irá informar essa leitura. Se for recebida por um bom grupo que preze o estudo e por uma pessoa de tato, será convidada a se inteirar dos estudos, participar das palestras e conhecer mais profundamente as obras de Allan Kardec. Ela é convidada a conhecer o Espiritismo em sua base ao mesmo tempo em que terá toda liberdade de ler o que quiser e de construir sua crença com ampla liberdade, uma vez que não se deseja doutrinar ninguém.

Qual dos dois modelos lhes parece mais coerente?

É preciso considerar, ainda, um terceiro caso. Essa pessoa leu um livro da Zibia, buscou um Centro Espírita para um primeiro contato, gostou, frequenta as palestras, mas não tem interesse em se tornar espírita ou participar efetivamente das tarefas da casa. Não há problema algum nisso. Cada um é livre para construir sua espiritualidade como achar que deve e de modo que isso lhe satisfaça.

Notas:

a) Segundo Aksakof, Japhet, a médium revisora de O Livro dos Espíritos, era profissional. Isto é, viva de seu dom, embora, aparentemente, tenha feito toda a revisão de O Livro dos Espíritos gratuitamente. Leonora Piper, uma das médiuns mais testadas de todos os tempos, também era uma médium profissional. Ela forneceu as melhores evidências científicas de mediunidade até hoje. Logo, o profissionalismo mediúnico não é igual corrupção mediúnica. No Espiritismo não se cobra pela mediunidade, mas nem de longe podemos censurar aqueles que o fazem;

b)    Critica-se Zibia Gasparetto por ter deixado de lado a caridade assistencial em razão de seus livros. Contudo, seus livros, programa de rádio e Tv, consolam milhões de pessoas. Isso não é uma grande caridade? Além, é preciso considerar, conforme a própria matéria da IstoÉ, que ela mantém, desde 1987, uma fundação que oferece cursos profissionalizantes na área de couro para pessoas carentes. Os que a criticam pela falta de caridade tem feito o quê, em troca?

c)    Igualmente, critica-se a editora por ela fundada, Vida & Consciência. Contudo, atualmente, esta é uma das poucas, senão, única, editora Brasileira que tem editado livros científicos sobre reencarnação (como os livros de Ian Stevenson). As grandes editoras espíritas não parecem interessadas no aspecto científico da reencarnação.

Eu já fui um fundamentalista e já critiquei tudo que agora estou defendendo. Porem, não estou defendendo a leitura dos livros da Zibia, não estou dizendo que são doutrinariamente coerentes e, menos ainda, que são espíritas. Estou apenas tentando não passar uma borracha em todo bom trabalho que ela já fez só pelo fato de não concordar com alguns de seus conceitos ou com sua postura pessoal de trabalho, cuja satisfação, nunca será dada a mim, mas somente a Deus.

Se se pode dizer – e se pode – com razão que o segmento religioso do Espiritismo Brasileiro precisa estudar Kardec, não tenho a menor dúvida ao afirmar que o movimento fundamentalista precisa, urgentemente, aprender sobre alteridade.