Espíritos da Umbanda podem se manifestar nos Centros Espíritas?

preto-velho

Fato. Antes de tudo, porém, é preciso esclarecer que não há isso de espíritos da Umbanda e espíritos do Espiritismo. Espíritos são espíritos e manifestam-se onde quiserem.

Eu já escutei dezenas de versões dessa história de que no terreiro o espírito se manifesta como preto-velho e Dr. no Centro Espírita, pois os Espíritas não aceitariam a manifestação de preto-velhos por preconceito.

Sinceramente, acho que isso é um mito que muitos Umbandistas repetem (eu já ouvi isso num terreiro de Umbanda, mas em mais de uma década em vários centros eu NUNCA vi isso acontecer).

Acontece que a Umbanda trabalha com arquétipos e um deles é o preto-velho. É ingenuidade pensar que o preto-velho seja o espírito de um negro e ex-escravo. Ele pode ter sido escravo, médico, dentista, lixeiro, etc. Quando um espírito se manifesta como preto-velho ele apenas está identificando a qual falange espiritual de trabalho ele pertence e isso é válido somente na Umbanda, sendo muito mais parte do RITO religioso (dos encarnados), do que uma necessidade do espírito em se manifestar.

No Espiritismo não se usa nada disso. O espírito se manifesta dando o nome que ele quiser. Contudo, a Umbanda, assim como o Candomblé, não tem muito interesse em estabelecer uma relação de contato direta com os espíritos familiares, preferindo as consultas com guias e instrutores. Já no Espiritismo o processo é o inverso e o contato com familiares é muito intenso, dai a necessidade do espírito se manifestar com seu nome.

Todos os espíritos podem se manifestar nos Centros Espíritas e não há vedação alguma quanto a isso. O problema é que, na tentativa de umbandizar o Espiritismo, muitos julgam por preconceito o fato dos dirigentes não aceitarem – não a manifestação do espírito que se identifica como preto velho (que, repito, eu nunca vi dentro de nenhum centro em mais de uma década) -, mas a todos os trejeitos, maneirismos e apetrechos ritualísticos que se usa na Umbanda. Isso precisa ficar claro.

O que os dirigentes vedam (ou vedariam, por que acho que isso acontece é muito mais exceção do que regra), não a manifestação desses espíritos, mas o fato de não se aceitar no espiritismo toda a ritualística que se usa na Umbanda. Simples assim. 

Se um espírito quer se manifestar num Centro Espírita e usar elementos como álcool, cigarros, folhas e ervas; se ele quer fazer uma gira, um ponto riscado ou ponto cantado, ele certamente está equivocado e errou de endereço. Não se trata de preconceito, é simples coerência doutrinária. Todos esses apetrechos ritualísticos não fazem parte do Espiritismo. Portanto, por que os centros deviriam aceitá-los?

Como espírito, repito, ele poderia se identificar como quisesse. Poderia usar seu nome, uma alegoria, um pseudônimo. Poderia se manifestar no Espiritismo, na Umbanda, no Catimbó, etc.

Obs.: É preciso considerar, contudo, que uma boa parte dos espíritas não entende muito sobre a Umbanda e pelo fato de verem nas giras Umbandistas uma série de rituais que não entendem, logo concluem que se trata de espíritos inferiores. Ledo engano.

Mídia e Espiritismo

Muitos espíritas acreditam que a palavra Espiritismo foi criada por Allan Kardec. Contudo, hoje sabemos que isso não é verdade. Por volta do ano de 2010, através da lista de emails da Confederação Espírita Pan-Americana, por seu capítulo Brasileiro, foi divulgado um pequeno trecho que faria parte de um livro, escritor por José Carlos Ferreira Fernandes, onde este nos mostra que a palavra Espiritismo já existia antes das publicações de Allan Kardec.

Como exemplo, cita dois livros, ambos de 1854, em que consta a palavra Espiritismo, no original “spiritism”. Você pode ver aqui e aqui (digite na busca do lado esquerdo: spiritism, e clique em “ir”). Entretanto, ainda que a palavra “Espiritismo” não tenha sido cunhada por Kardec, é fato que a ele ficou associada. Mas, nem sempre foi assim.

No Brasil, entre as décadas de 1910-1930, houve uma verdadeira “guerra” entre Espíritas e Umbandistas a respeito do uso das denominações: “Espiritismo e Espírita”. O cisma era que alguns autores Umbandistas, especialmente em razão do preconceito social, defendiam que a Umbanda também era uma forma de Espiritismo e, por isso, teria amplo direito sobre o termo. É nesta época que algumas nomenclaturas existentes hoje em dia tomaram forma, como, por exemplo: Alto Espiritismo, baixo Espiritismo, Mesa Branca, Centro de Terreiro, etc.

Esses neologismos todos terminaram por prejudicar tanto a compreensão do que é Espiritismo, quanto à compreensão do que é Umbanda. Contudo, se estes autores protestassem um usufruto histórico do termo, teriam razão, já que não foi Kardec quem criou o termo. Isso não ocorreu e o tempo passou e a polêmica esfriou. A Umbanda entre as décadas de 1940-1970 cresceu vertiginosamente e se corporificou com uma identidade própria, não havendo mais necessidade de usar o termo “Espiritismo” para se firmar socialmente.

Segundo autores como Alexandre Cumino, o mesmo aconteceu com muitos grupos do Candomblé, que buscando uma melhor visão social nesse período de ascensão Umbandistas, começaram a se denominar também como Umbandistas. A diferença, em relação à trajetória espiritismo-umbanda, é que muitos grupos não se uniram apenas em nomenclatura, mas também em práticas e movimentos como o Umbandomblé surgiram e até hoje progridem.

Fiz essa rápida introdução apenas para deixar claro o motivo pelo qual Espiritismo, Umbanda e Candomblé (todas, doutrinas espiritualistas), no Brasil são, até hoje, confundidas com Espiritismo ou, ainda, como formas diferentes de praticar o Espiritismo. Contudo, ainda que hoje se possam visualizar todos esses segmentos em seus respectivos campos, é possível encontrar informações distorcidas a respeito, especialmente, na mídia.

Recentemente li uma matéria cujo título me impressionou: Líderes do espiritismo explicam rituais da Umbanda e do Candomblé, publicada no site da Globo News, em 22/10/2013. O título me chamou atenção, afinal, que autoridade tem os espíritas para falar sobre Umbanda e Candomblé? O espanto, porém, não ficou apenas no título. Vejamos alguns recortes da reportagem: 

“No Parque dos Orixás, no RJ, espíritas realizam cultos com finalidades variadas, como a de descarrego e até para resolver problemas amorosos”.

A primeira coisa a se pontuar é que o Espiritismo não cultua Orixás. Depois, os espíritas não possuem práticas como a do descarrego e, por fim, não fazem trabalhos para “resolver problemas amorosos”. Acredito mesmo que muitos líderes da Umbanda e do Candomblé diriam o mesmo a respeito de suas religiões… Contudo, isso deixo para eles dizerem.

Depois, lemos o seguinte:

“Na Estrada Velha da Serra da Estrela, na Região Serrana do Rio de Janeiro, há o acesso ao Parque Ecológico dos Orixás. É uma região onde seguidores do espiritismo, tanto da Umbanda quanto do Candomblé, se reúnem para realizar suas cerimônias religiosas”.

Os espíritas não realizam “cerimônias religiosas” de nenhuma espécie, especialmente em Parques.

Depois, isso:

“José Antônio Luiz Balieiro, presidente da Federação Espírita Brasileira, diz que o Parque Ecológico dos Orixás foi criado para o povo da Umbanda e do Candomblé fazerem seus trabalhos espirituais”. 

Isso me deixou duplamente confuso. Primeiro, o presidente da Federação Espírita Brasileira é Antonio Cesar Perri de Carvalho. Segundo, José Antôno Luiz Balieiro era (ou é, não sei) presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (não do Rio de Janeiro, onde se encontra o parque), e tudo isso me fez pensar: afinal, quem é que foi entrevistado?

Enfim, há tantas informações desencontradas a respeito do Espiritismo e da Umbanda nessa matéria que creio que nossos amigos Umbandistas também não ficariam satisfeitos, como, por exemplo, a referência de que na Umbanda não se cultua Orixás…

É preciso ter muito cuidado com o que se lê na internet, mesmo em grandes e renomados sites como este. Esse tipo de má informação apenas atrapalha e não raro, influi sobre muitas pessoas que, acreditando na confiabilidade e renome do site, aceita essas informações como verdadeiras.

Vamos, portanto, ficar bem atentos!