Best-Sellers espíritas: uma outra visão

A “indústria do livro” parece ter percebido bem cedo que o público espírita, embora proporcionalmente pequeno (cerca de 2% da população), possui um alto consumo de livros do gênero. Não é à toa que, hoje, existem várias editoras publicando um número sem fim de livros dito espíritas.

Esta semana o jornal Folha de S. Paulo divulgou uma pequena matéria cujo título é: Biografia de Allan Kardec chega às livrarias para repetir fenômeno de Chico Xavier. Onde a jornalista Raquel Cozer apresenta alguns dados muito curiosos a respeito da vendagem de livros, vamos vê-los:

O livro “As Vidas de Chico Xavier” vendeu aproximadamente um milhão de cópias e virou filme. Agora, o mesmo autor retorna com uma biografia de Kardec que se espera ser um sucesso como a primeira.

Posteriormente, a jornalista apresenta alguns dados sobre alguns médiuns Brasileiros:

Robson Pinheiro: 1,2 milhões de livros vendidos em 18 anos de publicações;

Vera Lúcia Marizenck de Carvalho: 3,5 milhões de livros vendidos em 23 anos de publicações;

Marcelo Cezar: 1,5 milhões de livros vendidos em 13 anos de publicações;

Zibia Gasparetto: 16 milhões de livros vendidos em 55 anos de publicações.

O texto apresenta outras curiosidades numéricas:

  • A Federação Espírita Brasileira já vendeu mais de 11 milhões de cópias dos livros de Allan Kardec (incluindo aqui toda sua obra);
  • No seguimento “literatura religiosa” a venda de livros espíritas fica à frente dos livros católicos e evangélicos, correspondendo a 32,63% dessa fatia de mercado;
  • Demonstra, ainda, que os livros espíritas são, em média, mais caros (R$ 29,13) que os livros católicos (R$ 17,19) e evangélicos (R$ 21,21).

Com tantos números, fica evidente que a “indústria do livro espírita” está em aquecimento e isso tem cativado muitas editoras e autores, espíritas e não espíritas, a publicar cada vez mais.

Estes livros demonstram, igualmente, que os espíritas leem, proporcionalmente, mais Zibia Gasparetto do que Kardec e aqui surge motivo de preocupação.

No livro: Catálogo Racional – Obras para se fundar uma biblioteca espírita, Kardec faz uma divisão muito curiosa sobre as obras espíritas que havia em seu tempo. Divide assim os livros existentes: 

I – Obras Fundamentais da Doutrina Espírita (todos os livros de Allan Kardec, incluindo as Revista Espírita);

II – Obras Diversas sobre o espiritismo (poesias, músicas e desenhos);

III – Obras Realizadas Fora do espiritismo (filosofia e história, romances, magnetismo, obras contra o espiritismo, etc).

Desta forma se criou uma hierarquização para estas obras, tendo as de Kardec como fundamentais (e, no Brasil surge o conceito de obras básicas, referindo-se aos cinco principais livros de Kardec) e as demais obras são mais ou menos categorizadas em “diversas ou complementares” e “fora do espiritismo”.

Por esta atitude, observa-se que Kardec não tinha nenhum índice de livros proibidos. Mesmo livros contra o espiritismo foram indicados por ele. Não se trata, portanto, de proibir livros, mas de sugerir estudo.

Atualmente, vivemos num paradoxo: embora o movimento espírita consuma uma grande quantidade de livros, cada vez mais vemos espíritas pouco instruídos nos princípios básicos do espiritismo. Isso quando não vemos espíritas e mesmo instituições que deixam de lado os livros de Kardec e “erguem” seu edifício doutrinário baseando-se quase exclusivamente em romances.

Tal fato se deve, a meu ver, a uma supervalorização de obras paralelas em detrimento das obras de estudo e isso, acredito, é uma construção cultural e também financeira (por parte das editoras que incentivam a publicação de novos romances e do pouco apoio que dão aos pesquisadores).

O que vou dizer a seguir pode parecer chocante, mas é um fato que me parece cristalino: não se aprende espiritismo com Robson Pinheiro, Zibia Gasparetto (que já há tempos não se diz espírita), Marcelo Cesar, Chico Xavier, Divaldo Franco, etc.

Espiritismo se aprende nas obras de Allan Kardec, que são o fundamento do edifício da Doutrina Espírita. Esses outros autores, em suas respectivas áreas, podem e devem ser lidos, mas é importante assinalar que suas obras, por mais renomadas que sejam, ocupam o lugar de complementares, paralelas, subsidiárias e, às vezes, até mesmo antagônicas aos princípios espíritas…

Algumas pessoas talvez protestem. Mas, para mim, isso é um fato e não um menosprezo. O próprio Emmanuel disse ao Chico que se ele ensinasse algo que contrariasse Kardec, que o deixasse de lado. Os grandes espíritos fazem referência ao trabalho de Kardec e, a meu ver, isso tem um bom motivo: é que seu trabalho é muito bom e é de onde se deve partir o conhecimento sobre o Espiritismo.

Acredito, sinceramente, que mesmos esses autores não gostariam que suas obras fossem tomadas para fundamentar uma crença espírita no lugar das obras de Kardec. Acredito, com sinceridade, que eles próprios veem suas obras como uma forma de ajudar o espiritismo e não embaraçar o seu progresso.

Penso que seja o momento de refletirmos, enquanto movimento, no rumo que estamos dando ao Espiritismo e, ao mesmo tempo, sobre a importância de se estudar Kardec, a fonte do Espiritismo.