Os desafios do espírita livre-pensador

Ouvi pela primeira vez a palavra livre-pensador, aplicada ao espírita, provavelmente em 2010, na lista de debates da CEPA Brasil e fiquei bastante confuso. Afinal, o que seria isso? O livre-pensador espírita seria aquele que interpretaria o espiritismo à sua maneira?

Não há uma única resposta sobre isso, pois o modo de entender o livre-pensamento espírita varia para cada livre-pensador. Um livre pensador, ao ler este texto, poderá não concordar com nada do que eu disser ou concordar em parte ou ressalvar outra parte ou desejar fazer um adendo em alguma parte e isso é, em essência, o livre-pensamento espírita.

O livre-pensador espírita é alguém que vive, constantemente, entre duas tensões opostas, maravilhosamente bem definidas por Carl Sagan em seu brilhante artigo: O ônus do ceticismo, cujo recorte se poder ler abaixo:

“Parece-me que é necessário um equilíbrio muito cuidadoso entre duas necessidades conflitantes: o escrutínio mais cético de todas as hipóteses que nos são apresentadas e ao mesmo tempo uma grande abertura a novas ideias. Obviamente, essas duas modalidades do pensamento estão em alguma tensão. Mas se você puder exercitar somente uma delas, qualquer que seja, você tem um problema sério”.

Em termos espíritas, o conflito é vivido, por um lado, entre os fundamentalistas espíritas, que evocam, na época presente, o cadáver insepulto da ortodoxia e, por outro, entre o religiosismo espírita piegas que, cada vez mais, se infiltra no movimento Brasileiro, deixando, por onde passa, uma miscelânea de conceitos e práticas.

O livre-pensador entende a necessidade de estudar Kardec como entende a necessidade de compreender qualquer ciência pelo seu princípio, por sua história, pelos experimentos que se realizaram, pelos conflitos, etc. Reconhece o valor inestimável da obra de Kardec, sem, contudo, se fechar frente a novas opções. Não deixa de estudar um determinado assunto ou mesmo de aceitá-lo em se íntimo, apenas porque tal não foi trabalhado por Kardec ou, ainda, porque contraria os princípios básicos do Espiritismo, justamente, por entender que todo o método empregado por Kardec, embora muito bom, não foi perfeito, e por entender que área alguma do conhecimento permanece muito tempo sem se atualizar.

Por outro lado, o livre-pensador não é amante da novidade e não toma como revelação qualquer informação mediúnica. Não se dobra com facilidade a suposta santidade que se imputa a Chico Xavier, como se autoridade espiritual suprisse a necessidade de comprovação factual, aceitando opinião deste ou dos espíritos que se comunicaram por ele como verdades em razão da pessoa fraterna que sempre foi.

Justamente porque é livre (não num sentido utópico, já que estamos presos num tempo, num espaço e num contexto), pode analisar melhor as ideias, buscando evidências das mesmas, dentro e fora do espiritismo, pois entende que os fenômenos são universais, sem se contagiar pelo ufanismo que aparece no brilho do olhar do espírita crédulo por excelência!

O livre-pensador busca o tempo todo mediar essas duas forças, tentando enxergar o há de substancial, do que se pode, de fato, tirar proveito, do que é respaldado pelas demais áreas da ciência e que é substanciado pelos fatos. Neste sentido, muitas vezes, consegue se opor à ambos os movimentos, especialmente se criticar Kardec ou se criticar algum ídolo (quase de barro) formado pelo movimento espírita nacional… Aliás, a crítica (não confundir com maledicência), é uma característica comum do livre-pensador espírita, porque entende que criticar é pensar…

Os livres-pensadores estão salpicados pelo movimento espírita, embora muitos terminem por se afastar dos centros espíritas, em razão da dificuldade que encontram para expor suas ideias, sendo, frequentemente, vítimas de preconceito e exclusão social, quando não tomados por obsediados, vaidosos ou coisas do tipo, por não aceitarem determinados conceitos ou criticar determinados autores, encarnados ou desencarnados.

 O livre-pensador espírita, por fim, não é fiel à Kardec, é fiel a verdade! Ainda que isto implique, muitas vezes, em mudar de opinião e reconhecer erros em Kardec, em autores clássicos e contemporâneos do Espiritismo… Pensa que não se pode conhecer a verdade, não, pelo menos, em nosso estágio espiritual, mas que podemos, pelo menos, nos aproximar o máximo que pudermos dela… É levado a não aceitar uma tese, mesmo renomada, deste mundo ou do outro, se não estiver embasada ou se não lhe passar pelo crivo da razão. Leva a cabo o conselho de Erasto: Na dúvida, abstêm-te! Ainda que ouse com frequência especular, sempre busca distinguir a especulação dos fatos doutrinários.

Diria, em último caso, parafraseando Aristóteles sobre Platão, a seu modo: Sejamos amigos de Kardec, mas muito amigos da verdade!