De advogado à exu

balEm nossa casa, apresenta-se, sempre que ocorre o trabalho com os guardiões (à esquerda), uma entidade que aprendemos a conhecer e a respeitar e que, carinhosamente, chamamos de: Seu Pinguinha.

A sua manifestação é bem característica: sempre que incorpora, o médium cai de joelhos ao chão. Suas mãos são um pouco encurvadas e sua fala sempre risonha e debochada.

Gosta de pinga do engenho, que bebe num alguidar e de farofa de linguiça de porco feita na pimenta de bode, com pouca farofa e muita carne, como gosta sempre de repetir.

Chefia um bando e está presente em todos os trabalhos, manifestando-se sempre que o chefe, Sr. Marabô ou Seu Poeira abrem os trabalhos.

Ele nos contou como, de advogado na época da escravidão, no Brasil, ele se tornou um exu. Há lacunas que ainda não foram preenchidas, mas registraremos uma narrativa fiel ao que ele nos contou. Os buracos da história deverão ser perdoados pelos nossos leitores. A divulgação da sua história se dá a pedido do mesmo.

“Nesse lado, não há constituição, artigos ou parágrafos… A lei é só uma: quem pode mais”. Seu Pinguinha.

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Fora advogado no Brasil, em plena época da escravidão. Era alto, mais de 2 metros de altura e pesava mais de 140 quilos. Gostava muito de beber pinga e causou algumas inimizades pelo caminho.

Seguia um senso moral próprio: Se gostasse de alguém, podia lhe dar dinheiro ou terras que tirava de outro, de quem não gostava. Dessa forma, fez carreira, fama, dinheiro e, também, inimigos.

Certo dia bebeu uma cachaça batizada que o deixou grogue. Então, seis homens cercaram-se dele e começaram a agredi-lo. Como era alto e forte, impunha sempre muito medo. Mas, tonteado pela bebida, tornou-se vulnerável.

Um show de pancadarias se sucedeu e, mesmo debilitado, ainda conseguiu machucar muitos dos seus algozes, até que começaram a acertá-lo com pauladas nas costas, fraturando sua coluna. Foi espancado até a morte.

Acordou em um lugar tenebroso: um pântano que cheirava a vômito e diarreia. Ao seu lado, outras pessoas que, talvez já cansadas de pedir socorro, apenas tremiam e rangiam os dentes. Eventualmente, escutava um grito abafado de socorro.

Quanto mais se mexia, mais afundava e, desesperado por conseguir sair dali, usava toda sua força para tentar se locomover apenas por alguns centímetros nesse pântano horrendo. Suas costas ardiam muito e fedia a pus. Suas pernas haviam perdido a força de outrora.

Em alguns momentos, o desespero das outras pessoas era tão grande que, no desejo de sair dali, pulavam umas sobre as outras, fazendo com que alguns se afundassem e engasgassem com aquela lama fétida. Puro terror. Às vezes, silêncio ensurdecedor. Depois, gritaria desesperada. Na maior parte do tempo, apenas ranger de dentes e um ar insuportavelmente pesado para se respirar.

De quando em quando, via luzes cruzarem o céu e sempre gritava por socorro, em vão. Sentia-se como num pesadelo terrível a espera de alguém que pudesse acordá-lo, em vão.

A noção de tempo havia se perdido. Dias, semanas, meses? Não sabia precisar. Em dado momento, porém, conseguiu alcançar algumas pedras e fazendo tremenda força, conseguiu escalá-las, fugindo do pântano.

Não conseguia manter-se em pé. Então, arrastava-se para o mais longe possível do pântano. Divisou dois homens, conversando.

Aproximou-se deles e disse:

– Tô com sede! Quero água!

As entidades riram. Uma se aproximou e disse:

– Tá com sede? Mija no pântano e bebe!

– Eu to com fome, muita fome…

– Caga no pântano e come!

Aos xingamentos, afastou-se dali, arrastando para mais longe.

Percebeu, então, que estava dentro de uma gruta imensa, de número cinco, cujo fundo era o pântano em que se encontrava e que, em cada camada superior da gruta, haviam outras entidades, algumas se arrastando como ele, outras se agrupando em pequenos bandos, outras enlouquecidas. Não conseguia, porém, chegar à saída. Novo intervalo de tempo impreciso se sucedeu.

Ouviu, então, gargalhas ao longe e conseguiu divisar algumas pessoas comendo, bebendo, fumando e passeando entre os farrapos humanos que ali se encontravam.

Apressou-se ao máximo para ir de encontro à elas, gritando desesperadamente por socorro. Uma das entidades parou para ouvi-lo. Implorou por comida e por água. A entidade disse que iria ajudá-lo, se ele concordasse em seguir as regras.

Ouviu as regras, mas não deu atenção às cláusulas. O desespero falou mais alto. Aceitou-as de pronto. Deram-lhe, então, de comer e de beber, até que pudesse se saciar. A entidade aproximou-se dele, pôs as mãos sobre sua cabeça e ele adormeceu profundamente.

Ao acordar, já não tinha mais tanta dificuldade em se manter de pé. Sua roupa surrada tinha desaparecido. Em seu lugar, uma vestimenta preta, semelhante aos trajes comuns da idade média. Suas costas não estavam fedendo e a dor tinha desaparecido e seu nome agora era outro: Pinguinha.

Juntou-se ao bando e o chefe disse-lhe:

– Agora, vamos trabalhar!

– Sim, quem vamos defender? – Replicou.

– Não vamos defender ninguém. Vamos acabar.

– Ué, como assim?

– Não se recorda do nosso trato, da nossa conversa? Eu te expus as condições de te ajudar em troca dos seus serviços e você aceitou.

Nesse momento, percebeu que tinha sido socorrido por uma falange de exus que não tinham compromisso com o bem. Por alguns instantes, pensou em fugir dali, mas sabia que, para enfrentar o chefe, teria de enfrentar o bando, que parecia bastante leal. Por fim, concluiu que não deveria fazê-lo, afinal, não foi Deus quem o tirou do pântano e, sim, o novo chefe. Aceitou.

Por longos anos, trabalhou nas fileiras da quimbanda. Não se importava em ajudar, casar, descasar, tirar do caminho, atrapalhar e machucar a quem quer que fosse.

Manifestou-se em diversos terreiros onde pedia bebida, comida, galinhas e mesmo bezerros. Muitas vezes, acompanhou a morte de bezerros na encruzilhada de cana, onde sua força é maior. O animal era cortado vivo, as vísceras arrancadas, ele absorvia a energia do sangue e da dor do animal e ali, dentro do corpo, eram colocados os nomes das pessoas a quem se queria muito mal.

Com o passar dos anos, porém, foi se cansando de praticar a maldade. Sabia que devia obediência ao chefe, mas, aos poucos, foi se agrupando com outros espíritos, de outras falanges, que também não queriam mais fazer o mal, até que um novo grupo foi formado, forte o suficiente para se opor ao original. Conseguiram sua independência.

Procurou, então, fazer a caridade, corrigir seus erros. Foi chamado a trabalhar na esquerda da Umbanda, em diversos terreiros ao longo do último século. Graças as caridades praticadas, hoje consegue se sentar, em sua forma de exu, sem dores na coluna, o que sempre agradece ao maior por essa oportunidade.

Perguntado se este sofrimento fez com que se arrependesse da vida que tinha levado, respondeu-nos que não. Sabia, conscientemente, que agiu mal em roubar terras e dinheiro alheio, mas que seu maior arrependimento foi ter bebido a pinga batizada, pois não teria apanhado tanto nem morrido da forma que morreu se estivesse sobre efeito da cachaça genuína, pois ficava ainda mais forte e agressivo.

Se hoje alguém lhe procurasse solicitando serviços de outrora, agradeceria, mas não aceitaria. Não tem mais o mínimo interesse em praticar qualquer ato de maldade. Trabalha apenas para a caridade e nada mais.

Disse-nos que está feliz no bando em que atua, chefe de um pequeno grupo, subordinado à falange do Sr. Marabô e do Sr. Lira. É um dos guardiões da nossa casa e está sempre disposto a nos ajudar, seja protegendo, seja orientando, pois não quer, de forma alguma, que passemos pelo que ele passou.

Não tem desejo de encarnar tão cedo, pois acha que o mundo está hoje muito pior do que em sua época. As pessoas nascem e morrem querendo fazer maldade, hoje numa escala muito maior, costuma dizer.

Já perguntou aos chefes se um dia sairá da esquerda, se iria se manifestar como um caboclo, um preto-velho ou um baiano. Responderam-lhe que, nesse dia, ele seria apenas um espírito e trabalharia onde tivesse que trabalhar.

Mas, segundo o próprio, até que esse dia chegue, ele ainda tem muita cachaça para virar!

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O relato do Seu Pinguinha nos mostra com muita clareza que os exus, nossos guardiões, ainda são espíritos que, como nós, ainda estão longe da perfeição espiritual. Muitos, não se arrependeram completamente da vida que levaram, mas já compreenderam que precisam evoluir, que precisam praticar a caridade e que não há outro caminho para ascensão espiritual.

A Umbanda oferece a esses espíritos, pois não despreza ninguém por falta de elevação espiritual, a oportunidade de praticar a caridade e de evoluir e são eles, nossos guardiões, como soldados da infantaria, 24 horas por dia em alerta para nos defender se nos mostrarmos merecedores!

Que possamos todos tirar desse relato uma lição para nossa vida, pois frequentemente entramos em caminhos que, previamente, sabemos não levar a lugar algum e, por outro lado, saudemos a força dos nossos protetores que nos ensinam com suas experiências a não repetir os mesmos erros.

Salve, Seu Pinguinha!