A santidade de Chico Xavier

Para muitos espíritas e não espíritas, Chico Xavier, talvez, pudesse ser tratado por São Chico Xavier, caso pertencesse a Igreja (que, alguns mais maldosos, dizem nunca ter abandonado). Há, inclusive, um livro cujo título reforça a ideia de santidade no médium.

O interessante, a esse respeito, é que Chico sempre fez questão de se colocar como uma pessoa comum, cheia de dificuldades e defeitos. Mas, por certo, os mais chegados a santificá-lo viram nessas declarações atestados de humildade e, por consequência, de santidade.

É preciso dizer que outros também atribuem algum significado sagrado à sua mediunidade. Tais pessoas talvez se surpreendessem ao saber que o médium foi, mais de uma vez, vítima de mistificações e que o correr dos anos, as obras assistenciais, bem como a proteção e tutela de Emmanuel não o livraram de tais imprevistos.

É ele próprio quem nos informa:

35 – Durante este tempo, foi você vítima de mistificação alguma vez?

– Muitas.

36 – E até hoje isso acontece ou pode acontecer?

– Sim.

37 – Por que sucede isso a você, que já psicografou quase cem livros (obs.: Esta entrevista se deu em 1967).

– Decerto que o Mundo Espiritual permite que eu passe por essas provações para mostrar-me que receber livros dos Instrutores Espirituais não me cria privilégio algum, que estou apenas cumprindo um dever e que sou um médium tão falível quanto qualquer outro, com necessidade constante de oração e trabalho, boa vontade e vigilância. [No Mundo De Chico Xavier – Elias Barbosa, 2º edição, 1975, .p 31 e 32]

Kardec, em O Livro dos Médiuns, item 238, já nos alertava sobre isso:

“Ninguém está obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Espírito mentiroso. O melhor médium se acha exposto a isso, sobretudo, no começo, quando ainda lhe falta a experiência necessária, do mesmo modo que, entre nós homens, os mais honestos podem ser enganados por velhacos”.

Como se pode ver, o próprio admite ter sido enganado várias vezes, o que, aos meus olhos, não lhe tira os méritos, pelo contrário, aumenta-os, uma vez que admitir as próprias imperfeições não é algo fácil, especialmente nestes casos, em que se santifica uma pessoa. Chico parecia lidar muito bem com isso, já os Chiquistas…

E no que tange a sua possível santidade, ele nos diz:

40 – Ignorará você a popularidade que os livros mediúnicos lhe trouxeram?

– Sei que eles me trouxeram muita responsabilidade. Quanto ao caso da popularidade, sei que cada amigo faz de nós um retrato para uso próprio e cada inimigo faz outro. Mas, diante do Mundo Espiritual, não somos aquilo que os outros imaginam e sim o que somos verdadeiramente. Desse modo, sei que sou um espírito imperfeito e muito endividado, com necessidade constante de aprender, trabalhar, dominar-me e burilar-me, perante as leis de Deus. [destaque meu]

Achei brilhante essa resposta. Como toda figura notória, ele inspirava de um lado o sentimento de santidade e, de outro, o sentimento de farsante. Estes sentimentos ainda existem e, creio, se intensificaram no imaginário popular após a sua morte.

Contudo, do meu ponto de vista, prefiro ficar com o Chico homem e todos os defeitos que reiteradamente ele afirmava possuir. A sua maior obra, penso, é sua própria vida. Ela foi a prova viva de que todos os encarnados podem lutar contra suas imperfeições e, ao mesmo tempo, produzir um grande trabalho. Que o fato de ser médium não lhe privou de privações. Que seu trabalho no bem não o fez um tutelado dos céus. Que todos sofremos, choramos e sorrimos e que, talvez, como ele, possamos vencer em nossa encarnação.

“O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia, todos o admiram como se fora um fenômeno”. O Livro dos Espíritos, questão 895.