Perispírito – Algumas considerações II

Leia a primeira parte do diálogo aqui…

Continuação…

16. Eu já li em alguns livros e até mesmo em relatos de EQM onde o espírito diz que dormiu logo após a morte. Como fica isso?

Uma das coisas que Kardec nos alerta logo na introdução de O Livro dos Espíritos, é sobre a dificuldade em escolher as palavras para representar as coisas novas.

Acho que seja o caso. Sono é uma boa palavra para descrever um estado confuso de consciência ou mesmo ausência de consciência por algum tempo. A morte causa uma espécie de choque ao espírito que perde completamente sua referência corporal e temporal e, ao recuperá-la, compara este intervalo como um período de sono. (LE-165)

17.  Voltando a comida. É praticamente senso-comum no meio espírita que os espíritos comem. Pelo menos, os espíritos mais próximos da Terra.

Sim. É verdade. Contudo, não foi sempre assim. Durante as primeiras décadas do Espiritismo não se falava sobre este assunto. Kardec até estudou alguns casos sobre isso, mas seriam apenas sensações, lembranças, repercussões de um estado material ainda refletindo sobre o perispírito (LE-257).

18. É, estou bastante confuso. Pelo visto, eu nada sei sobre o perispírito e, o pior, não sei em que acreditar com tanta informação desencontrada que o Senhor está me passando.

Eu te entendo e também passei por isso. É o que costumo chamar de: a contra mão do conhecimento. A gente acha que sabe alguma coisa de Espiritismo pelo que aprendemos no Centro e, de repente, vamos estudar na fonte e vemos que está tudo diferente.

19. E como conciliar?

Não há caminhos prontos. Você terá que construir o seu. Alguns se decepcionam, outros se enraivecem e eu te convido a estudar mais profundamente e ponderar melhor quando tiver mais conhecimento. Lembre-se: tudo ainda é muito especulativo e ninguém deu a palavra final sobre o assunto. Estou apenas confrontando o saber que você adquiriu no centro, com aquilo que escreveu Kardec. No fim, parece que estamos falando de duas doutrinas diferentes, não é mesmo? (risos).

20. Sim, o senhor está certo… Porém, isso não me consola. Praticamente, tudo que li fala o contrário do que o Senhor está me dizendo. Até a imagem que tenho do Mundo Espiritual está confusa. Mas, me diga, o que mais se diz sobre o perispírito que não possui respaldo na obra de Kardec?

Bem, vejamos… Você já deve ter ouvido falar que o suicida fere o perispírito, certo?

21. Sim, já ouvi falar muito isso. Se alguém dá um tiro na cabeça, por exemplo, isso afetaria o perispírito e numa encarnação futura a pessoa poderia nascer com problemas mentais, uma vez que feriu o seu cérebro perispiritual.

Sim. É isso mesmo que dizem. Porém, você já pensou sobre o que ocorre quando alguém dá um tiro na própria cabeça ou quando leva um tiro na sua cabeça? A bala é a mesma, vai atravessar a matéria e danificá-la da mesma forma. Isso fará com que uma pessoa assassinada reencarne com problemas mentais?

22. Não! Sem dúvida, não! A diferença está na intenção… A pessoa que é assassinada não quer morrer. A que se mata, sim!

Isso é verdade. Mas, e se eu te dissesse que, segundo Kardec, o perispírito é indestrutível? Já imaginou como algo indestrutível pode ser destrutível mediante uma bala de revolver? (O Principiante Espírita, item 9).

23. Como assim?

O perispírito não é, propriamente, imaterial. Ele é semimaterial. Isto é, participa, ao mesmo tempo, de duas naturezas: a física e a espiritual. Se assim não fosse, o perispírito, que é o veículo das sensações do espírito (LE-249), não permitira ao espírito ter quaisquer sensações. E o que ocorre é bem diferente. Os espíritos nos veem, ouvem etc. E fazem isso através do perispírito. Isto quer dizer que, de alguma forma, nossas moléculas materiais repercutem no perispírito, dando-lhes as sensações.

24. Bem, se é assim, porque uma bala não poderia feri-lo?

Essa repercussão (LE-257) – por falta de termo melhor -, é como uma lembrança ao espírito. Ela é muito leve, sutil. Não é capaz de trazer a mesma vivacidade que nossos órgãos. Em O Livro dos Espíritos (LE-91), ao perguntar sobre o obstáculo que a matéria poria aos espíritos, é respondido que não há nenhum. Eles poderiam passar mesmo por um fogo sem problemas. Se a repercussão fosse tão intensa, eles não deveriam se queimar?

Continua…

Credo Espírita

kardec

  1. Crerem um Deus todo-poderoso, soberanamente justo e bom;
  2. Crer na alma e em sua imortalidade;
  3. Na preexistência da alma como única justificativa do presente;
  4. Na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral;
  5. Na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos;
  6. Na felicidade crescente na perfeição;
  7. Na equitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras;
  8. Na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura;
  9. Na duração da expiação limitada à da imperfeição;
  10. No livre arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal;
  11. Crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível, na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados;
  12. Considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno;
  13.  Aceitar corajosamente as provações, tendo em vista o futuro mais invejável do que o presente;
  14. Praticar a caridade em pensamentos, em palavras e em ações na mais ampla acepção da palavra;
  15. Se esforçar cada dia para ser melhor do que na véspera, extirpando alguma imperfeição de sua alma;
  16. Submeter todas as suas crenças ao controle do livre exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega;
  17. Respeitar todas as crenças sinceras, por irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém;
  18. Ver, enfim, nas diferentes descobertas da ciência a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus;

Eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode se conciliar com todos os cultos, quer dizer, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os Espíritas em uma santa comunhão de pensamentos, à espera que una todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.

Revista Espírita de 1868 – Dezembro – É o Espiritismo uma religião?

Perispírito – Algumas considerações

perispirito-1

Suposta conversa entre dois espíritas. Um mais velho e um mais jovem:

1. O que é o perispírito?

 É o laço semimaterial que une o espírito ao corpo. (LE, 93)

 2. É o perispírito que dá aparência humana ao espírito? 

Sim. O perispírito recobre o espírito e conserva uma aparência semelhante a que o corpo tinha. Pelo menos, é a tendência nos primeiros tempos de além-túmulo. (LE, 150ª)

 3. E depois, como fica?

Depois, normalmente, os espíritos não assumem uma forma determinada. Eventualmente, quando evocados ou quando sentem necessidade, eles podem assumir a forma humana da última encarnação ou tomar outra aparência que tiveram numa encarnação passada. (RE. 1858 – O tambor de Beresina)

4. Isso quer dizer, então, que se eu chamasse pelo meu avô, ele poderia vir com outra aparência?

Se você chamasse pelo seu avô, ele provavelmente se manifestaria como sendo seu avô. Se fosse possível vê-lo, ele conservaria a aparência de uma determinada etapa da sua vida, normalmente, a que lhe agrada. Ele poderia aparecer como fora em sua juventude ou no estágio final da sua velhice. (GE. Os Fluidos – Item 14)

5. Entendo. Mas, se pedisse a meu avô, supondo que eu pudesse vê-lo, para assumir uma aparência de uma antiga encarnação sua, ele poderia?

Sim. Desde que retrocedesse seu pensamento àquela época. (Vide acima)

6. Não é estranho isso?

Muito. Nosso corpo é nosso referencial, enquanto encarnados. É um pouco difícil imaginarmos como seria viver sem dar tanta importância ao que, por agora, é fundamental para nós.

7. É verdade que a memória fica no perispírito?

É complicado falar em verdade. Penso que nunca atingiremos a verdade, embora possamos chegar bem perto dela em alguns campos científicos. No campo espiritual, é tudo especulação, mais ou menos consistente, mais ou menos fundamentada. A ideia de que o perispírito guarda a memória é antiga, mas improcedente, para mim.

8. Como assim?

A questão 94 de O Livro dos Espíritos, diz que o espírito, ao passar de um mundo para outro, precisa mudar de perispírito. Quando um espírito está na Terra, o seu envoltório tem que ser adequado a materialidade deste mundo. Ele se reveste, então, dos fluidos deste planeta, conforme seu grau de progresso, formando seu corpo espiritual que nada mais é do que um aglomerado fluídico em torno de um foco: o espírito. Ora, se a memória estivesse no perispírito, e ele fosse a outro mundo, onde precisaria de um novo perispírito, ele ficaria desmemoriado?

9. Estou um pouco confuso… É que ouvi falar no centro que a memória estava no perispírito e nunca pensei dessa forma que você está me dizendo…

Lembre-se do que disse há pouco: tudo neste campo é especulativo. Mas, há coisas que são mais e outras que são menos fundamentadas. Conforme estudar sobre o perispírito, vai perceber que se torna cada vez mais difícil apostar na hipótese que o mesmo guarda a memória.

10. Sendo assim, eles não deveriam ensinar isso no centro, deveriam?

Normalmente, as pessoas que estão nos centros são gente de boa-vontade, fazendo o que acham certo fazer. Mas, o homem é falível, quem não é? Eu mesmo sou e tudo que te disse é somente a minha opinião.

Vou te dar um conselho, talvez seja útil… Sempre que ouvir alguma coisa numa palestra que te pareça entranha, peça a fonte, pergunte qual a origem daquele conhecimento que estão te passando.

Se o palestrante for estudioso, ele vai saber te indicar ou, se não souber na hora, vai trazer depois. Mas, se não dominar o assunto, vai apenas dizer que “está em tal livro”, “foi fulano que disse”, mas no fundo, ele não vai te indicar uma fonte, pois ele não sabe.

11. Mas, a memória não está no cérebro perispiritual?

E será que o perispírito tem cérebro?

12. !?

Calma, vou explicar. Alguns autores espirituais, pós-Kardec, descreveram o perispírito como um corpo, uma réplica eterizada do corpo físico ou vice-versa. Nessa linha de pensamento, o perispírito possui todos os órgãos do corpo físico e seus respectivos funcionamentos. Nessas literaturas o espírito come, bebe, dorme, defeca, menstrua, e por aí vai…

13. O senhor não acredita nisso?

Não. Mas, antes de explicar o motivo, quero te explicar outra coisa. Quando falamos ACREDITAR, estamos falando em dar crédito, dar veracidade a alguma coisa. Lembra que disse que tudo é especulação, diferenciando-se somente pela consistência? Então… Eu me baseio na obra de Kardec e lá não se fala, em canto algum, que o perispírito seja assim. Eu não digo que não possa ser assim, eu digo que não acredito ser assim. Percebe a diferença?

14. Sim. Não é por que o senhor não acredita que acha que não pode existir, é isso?

É isso.

15. Certo. Mas, o espírito não come, não bebe, não dorme?

Eu penso que não. Veja o que Kardec escreveu:

Há sensações que têm sua fonte no próprio estado de nossos órgãos; ora, as necessidades inerentes ao nosso corpo não podem ocorrer do momento que nosso corpo não existe mais. O Espírito não sente, pois, nem a fadiga, nem a necessidade de repouso, nem a de alimentação, porque não tem nenhuma perda a reparar; não é afligido por nenhuma de nossas enfermidades.” (RE. 1859 – Quadro da vida espírita)

Continua…

 Obs.: Para facilitar o uso de referências, iremos usar as seguintes abreviações:

LE – O Livro dos Espíritos

LM – O Livro dos Médiuns

ESE – O Evangelho Segundo o Espiritismo

CI – O Céu e o Inferno

GE – A Gênese

RE – Revista Espírita.