Tatuagens e Umbanda

tatuagem-aquarela-8Há algum tempo abordei o tema “Tatuagens e Espiritismo” e, desde então, este se tornou um dos assuntos mais pesquisados no blog. Agora, abordarei o mesmo tema em relação à Umbanda: o que diz a Umbanda sobre tatuagens?

Antes de tudo é bom considerar o seguinte: diferente do Espiritismo, a Umbanda não tem codificação ou um livro-base onde estão descritas suas crenças ou práticas.

Grande parte da doutrina Umbandista se perpetuou pelo tempo através da prática. Cada um que aprendia ensinava a outro, que ensinava a outro, até nossos tempos.

Por essa razão, ao longo deste mais de um século de existência, a Umbanda ganhou coloridos e formas de acordo com os expoentes que a representaram em cenário local ou nacional. Isto explica a grande variedade de cultos e formas observadas na religião que, embora bastante diversa, conseguiu, pela experiência do tempo e graças aos guias espirituais, manter um tronco comum sem necessidade de codificação ou de entidades federativas para isso.

Bem entendido isso, é preciso considerar que, sobre todos os assuntos referentes à Umbanda, sempre cabe uma opinião pessoal ou, pelo menos, o senso-comum em relação a determinado assunto. Logo, quase todos eles, se não estão explicitamente inclusos dentro dos ensinos básicos e bem conhecidos do Caboclo das Sete Encruzilhadas (como a caridade, a gratuidade, etc), são e sempre serão de natureza opinativa e pessoal…

Tive a oportunidade de conversar com algumas entidades sobre as tatuagens e, para todas elas, não havia nada de mais em possuí-las. Aliás, uma das entidades, um caboclo, tinha o corpo todo coberto por tatuagens, feitas em sua última passagem pela Terra, dentro do agrupamento indígena em que havia reencarnado.

Sim, após a morte, o espírito leva consigo a aparência da última encarnação. Logo, se ele foi um índio todo tatuado, deverá se apresentar como um índio todo tatuado no além. As tatuagens faziam parte da sua identidade visual e da sua imagem corporal, portanto, ele as carrega além-túmulo.

Neste sentido, observei que, diferentemente do Espiritismo, onde o assunto é tratado com temor e receio quanto a possíveis danos ao perispírito, as tatuagens são bem aceitas dentro do Movimento Umbandista. Não é raro encontrarmos médiuns cujos corpos estão grafados com os nomes de seus Orixás de cabeça ou mesmo com os nomes e/ou símbolos das entidades com as quais trabalham.

Nenhuma entidade com quem pude conversar fez qualquer pontuação negativa sobre as tatuagens, recomendando, apenas, bom-senso sobre o que tatuar e onde se tatuar, já que símbolos, conforme bem sabemos, possuem força e – convém não esquecer -, nossa sociedade é, ainda, muito preconceituosa com determinadas tatuagens, ainda mais quando plenamente visíveis.

As entidades apenas pontuaram que, respeitando o corpo (portanto, nada de virar um gibi…), que nos foi emprestado para nossa evolução, as tatuagens podem muito bem representar valores importantes à pessoa e, por isso, não há problema algum em fazê-las em si mesmo.

Símbolo do Espiritismo

Se você está começando agora no Espiritismo, talvez estranhe o fato de não encontrar nenhum símbolo que o represente nos Centros que frequenta. Você sabe que o símbolo do Cristianismo é a cruz; sabe que a Estrela de Davi representa o Judaísmo; que o Yin-Yang representa o Taoismo; que a Lua crescente seguida de uma estrela representa o Islamismo. Mas, e o Espiritismo, existe algum símbolo que o represente?

Normalmente, podemos encontrar imagens que colecionam símbolos religiosos com diversos deles e ao chegar ao Espiritismo, encontramos uma pintura de Kardec ou uma foto de Chico Xavier. Em muitos sites, jornais, etc., usa-se a imagem de ambos como uma espécie de símbolo – na falta de um – para representar a Doutrina Espírita.

A prática espírita visa à simplicidade. E no conceito de simplicidade espírita está a ausência de tudo aquilo que não seja essencialmente necessário à prática espírita. É por isso que o Espiritismo não possui uma bandeira ou um símbolo visível na fachada que identifique ao transeunte um local espírita. Normalmente, apenas o nome da instituição, e nada mais.

Entretanto, em O Livro dos Espíritos – Prolegômenos (introdução ou prefácio) encontramos uma citação bastante curiosa, ditada pelos espíritos à Kardec:

“Porás no cabeçalho do livro o ramo de parreira que te desenhamos, porque é ele o emblema do trabalho do Criador. Todos os princípios materiais que podem melhor representar o corpo e o espírito nele se encontram reunidos: o corpo é o ramo; o espírito é a seiva; a alma, ou o espírito ligado à matéria é o bago. O homem quintessência o espírito pelo trabalho e tu sabes que não é senão pelo trabalho do corpo que o espírito adquire conhecimentos”.

O primeiro ponto a se observar é que os espíritos destacam a parreira (ou cepa do vinhedo) como um emblema que representa o trabalho do Criador, ou seja, a própria Criação.

Posteriormente, dizem que esse emblema reúne os princípios materiais do corpo e do espírito; sendo o galho representante do corpo físico; o suco da uva representa o espírito (nossa essência) e o fruto – o perispírito, ou seja, a parte espiritual que se liga à matéria.  

Os espíritos não apenas fizeram essa analogia, como também fizeram um desenho que Kardec reproduziu, conforme orientação, em O Livro dos Espíritos.

Desenho mediúnico em Prolegômenos

Portanto, apesar de não carregar uma bandeira própria ou algum emblema na fachada das instituições, foram os próprios espíritos que desenharam, explicaram e solicitaram à Kardec que tal fosse incluído em O Livro dos Espíritos.

Podemos nos perguntar: se os símbolos são realmente pouco úteis, por que é que fizeram questão de desenhá-lo e de inseri-lo em O Livro dos Espíritos?

Do meu ponto de vista, portanto, a cepa é o símbolo do Espiritismo, ainda que não usado. No entanto, esse símbolo assume apenas a função de um “logotipo” e não de uma imagem de adoração, como em algumas religiões. 

O tema foi abordado na série “Sagrado”, veja:

Revista Ciência Espírita

Capa da edição número 01

Louvamos a iniciativa de Sandro Fontana e equipe pelo lançamento da revista Ciência Espírita, focada na análise dos fenômenos mediúnicos, que vem suprir a falta de espaço para esse tipo de abordagem. Que ela continue e dê frutos!

Para acessar, basta clicar no link abaixo (é gratuita).

REVISTA CIÊNCIA ESPÍRITA.

Um recado do além

No dia 21 de Agosto de 2014 estive presente, juntamente com a minha sogra e minha noiva, no Centro Espírita Irmãos da Luz1, em Uberaba-MG, para assistir às psicografias do médium Adão Vilela.

Soube do referido médium através de um testemunho pessoal divulgado numa lista fechada sobre estudos científicos do Espiritismo e muito me impressionei com a riqueza de detalhes das comunicações obtidas, especialmente por ter sido divulgada, em caráter pessoal, o ocorrido na família de um dos membros que sei não ser espírita.

Leia o restante do texto aqui.

O caráter religioso do Espiritismo – Artigo

Acabo de ler interessantíssimo artigo de Célia da Graça Arribas, Doutora em Sociologia pela USP, onde a mesma, de forma clara e objetiva, faz um retrospecto histórico muito interessante sobre os fatores que levaram o Espiritismo a ser visto, assumido e praticado, no Brasil, como religião. O interessante é que essa análise, ao contrário de muitas outras (das quais eu já fiz parte), não vê esse processo como deturpação de uma produção original, mas de uma reconstrução do original adaptado aos cenários e contextos Brasileiros, especialmente, em relação à ordem judiciária. 

O texto pode ser lido aqui: http://seer.ucg.br/index.php/fragmentos/article/view/2709/1650

Obs.: Mais uma vez, a fonte desse interessante material é a lista de debates da CEPABrasil, de longe, o melhor veículo de comunicação para interessados no estudo do Espiritismo no Brasil.

Quem escreveu O Livro dos Espíritos?

livro dos espirtosSe você tem algum conhecimento sobre o Espiritismo, deve saber que não foi Allan Kardec. Este formulou questões, retocou-as, revisou-as, as organizou e publicou as respostas em forma de livro.

Mas, quem foram os espíritos que ditaram as respostas? Foram muitos. Nós não sabemos o nome de todos, mas alguns o próprio Kardec revela na introdução de O Livro dos Espíritos:

“São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc., etc”.

Abaixo, segue um pequeno resumo biográfico destas figuras:

São João Evangelista – Filho de Zebedeu e Salomé, foi pescador e irmão de Tiago maior. Era o mais novo dos apóstolos escolhidos por Jesus. Segundo a Bíblia, Jesus parecia ter algum tipo de predileção por João. Esteve ao lado de Jesus durante a crucificação, dando apoio à Maria. É considerado autor do quarto Evangelho (Evangelho de João) e também do livro de Apocalipse, embora haja alguma polêmica a respeito de sua autoria. Após a morte de Jesus, viajou para a Ásia onde pregou o Cristianismo. Morreu por volta dos cem anos de idade.

Santo Agostinho – Nascido Aurelius Augustinus, em Tagaste (África) em 13 de novembro de 354 d.C, filho de Romanos. Sua mãe era Cristã e posteriormente ficou conhecida como Santa Mônica. Quando jovem, estuda em Catargo onde descobre o gosto por filosofia. Forma-se professor de retórica em Roma, casa-se, tem um filho. Infeliz, acaba tendo contato com os escritos de Paulo (São Paulo) e decide tornar-se religioso. Em passagem por Hipona (Argélia), é nomeado padre e depois bispo. Escreve mais de uma centena de obras teológicas e se firma na história como um dos mais influentes pensadores Cristãos.

São Vicente de Paulo – Nasceu em Paris, em 1660. Filho de camponeses profundamente católicos. Tinha cinco irmãos. Formou-se professor e posteriormente cursou teologia. Foi ordenado padre aos 19 anos. Em 1605, voltando de uma viagem de navio, sofreu com o ataque de piratas turcos que o prenderam e venderam como escravo a um pescador, depois para um químico e por fim a um fazendeiro. A esposa deste fazendeiro, ouvindo as canções religiosas de Vicente, sensibilizou-se e sensibilizou seu marido para que o levasse de volta à França. Retornando, foi admitido novamente como padre e se imortalizou pelas obras de caridade, especialmente aos doentes e pobres. Destacou-se por sua humildade e caridade entre a nobreza Francesa e os camponeses sofridos.

São Luís – Luís IX, nasceu em 1214 em Poissy, França, na família real. Durante seu reinado (1226-1270), a França viveu um período de intenso fortalecimento cultural, econômico, político e militar. Organizou duas cruzadas, morrendo na última. Era profundamente religioso e austero, entendia que tinha por função salvar a alma dos Franceses. Sua política apoiava aos pobres e proibia jogos e prostituição. Era aficionado por relíquias religiosas, tendo comprado várias.

O Espírito de Verdade – Esta enigmática figura, não identificada, era sempre tratada por todos como o mais elevado e responsável direto pelo Espiritismo na Terra. Em 1856 Kardec recebe a primeira comunicação deste espírito, se dispondo a vir auxiliá-lo uma vez ao mês durante ¼ de hora (25 minutos!). Ditou diversas mensagens, todas de conteúdo moral muito belo e, por sua fala muito pessoal e próxima do ensino de Jesus, muitos espíritas pensaram que era o próprio Cristo, que resolveu não assumir sua identidade para não causar polêmica. O próprio Kardec não se livrou da curiosidade sobre esse espírito e no livro: Instruções práticas sobre as manifestações espíritas, informa que, posteriormente, descobriu sua identidade e que se tratava de um filósofo da antiguidade.

Sócrates – Nascido em Atenas, 469 a.C é uma das mais importantes figuras no campo filosófico da histórica ocidental. Destacou-se no campo da ética e educação, e por seus pensamentos sobre amor, virtude e conhecimento. Acreditava na imortalidade da alma, sendo um dos precursores do Espiritismo em tempos antigos. Reconhecido por sua sabedoria, foi condenado à morte, entre outras coisas, por “corromper os jovens”.

Platão – Nasceu em Atenas, entre 348/347 a.C. Filósofo e matemático, discípulo de Sócrates e responsável por trazer esta para a história, uma vez que Sócrates não escreveu nenhuma obra. Fundou a “Academia de Atenas”, a primeira universidade ocidental. Destacou-se no campo da ética, justiça, epistemologia, matemática e dialética. Também acreditava na imortalidade da alma e imaginava um tipo de justiça Divina que recompensava as pessoas boas com o bem e as más com o mal, após a morte.

Fénelon – François Fénelon nasceu em 1651, em Perigord, França. De família nobre, estudou filosofia e tornou-se sacerdote católico. Estudou teologia e destacou-se na produção de obras pedagógicas e na educação de jovens da nobreza Francesa. Era conhecido por ser uma pessoa doce e caridosa. É uma figura pouco conhecida do Movimento Espírita, entretanto, podemos ver que Kardec sempre falava muito bem deste espírito em suas obras.

Franklin – Benjamin Franklin nasceu em Boston, EUA, em 1706. Destacou-se como um dos líderes da revolução Americana e por seus experimentos com eletricidade. Junto com outros Maçons, ajudou a fundar a primeira biblioteca pública da Filadélfia, em 1732. Era uma pessoa dinâmica, participando da política, teologia, poesia e também do movimento abolicionista. Era Calvinista.

Swedenborg – Emanuel Swedenborg nasceu em Estocolmo, Suécia, em 1688. Filho de um pastor Luterano de renome, cedo teve acesso à nobreza de seu país. Estudou “Engenharia de Minas”, deu aulas de matemática em universidade e pesquisava áreas como geologia e hidráulica. Seu nome permanece na história, porém, por outro motivo. Aos 56 anos de idade disse ter visto o próprio Deus que lhe deu a missão de revelar o sentido espiritual oculto da Bíblia. Escreve, então, diversos textos que são tidos por heréticos e passa a ser perseguido pelos religiosos. Destacou-se, também, como inventor, tendo produzido o primeiro projeto cientificamente viável de um avião. Foi um médium vidente e clarividente (dupla-vista) muito famoso, tendo conseguido intermediar comunicações para realeza e também relatar fatos que aconteciam em outras cidades.

Comentário:

Isto é apenas um breve resumo. Existe muita informação sobre essas pessoas na internet. Agora, vamos fazer um balanço:

São João Evangelista, Santo Agostinho, Vicente de Paulo e São Luís, são todos santos Católicos (pessoas que realizaram feitos grandiosos para a Igreja). Fénelon foi padre e uma pessoa de profunda fé Católica.

O Espírito da Verdade, Sócrates e Platão, foram pessoas que se destacaram na filosofia. A contribuição dos dois últimos é notória e seu reconhecimento, hoje, é a prova disso. O Espírito da Verdade não sabemos quem foi, mas como o próprio Kardec disse, tratava-se de um “ilustre filósofo da antiguidade”.

Franklin e Swedenborg eram protestantes e se destacaram no campo científico em sua época.

Podemos perceber, facilmente, que o Espiritismo sofreu influência direta do Catolicismo, Protestantismo, da Filosofia e da Ciência. Várias destas personalidades, mesmo consideradas Santas, tiveram erros durante a vida. Santo Agostinho abandonou a esposa; São Luís organizou cruzadas; Swedenborg era obsediado, etc. Entretanto, todos marcaram a história, trouxeram contribuições importantes e, como espíritos, se regeneraram e progrediram e foram responsáveis pelo surgimento do Espiritismo, na Terra.

Provas e Expiações – Você sabe a diferença?

Frequentemente se ouve falar em “provas e expiações”. Mas, você sabe a diferença entre elas?

É o próprio Kardec* quem explica:

PROVAS – Vicissitudes da vida corporal, pelas quais os Espíritos se depuram, conforme a maneira por que as suportam. De acordo com a doutrina espírita, desprendendo-se do corpo e reconhecendo sua imperfeição, o Espírito escolhe por si mesmo, num ato de seu livre-arbítrio, o gênero de provas que julga mais apropriadas ao seu adiantamento, e que sofrerá em nova existência. Se escolher uma prova acima de suas forças, sucumbirá e seu progresso será retardado”.

EXPIAÇÃO – pena que sofrem os Espíritos em punição de faltas cometidas durante a vida corpórea. Como sofrimento moral, a expiação se verifica no estado errante; como sofrimento físico, no estado de encarnado. As vicissitudes e os tormentos da vida corpórea são, ao mesmo tempo, provas para o futuro e expiação para o passado”.

Ou seja:

As provas estão relacionadas às escolhas do espírito para sua vida futura. E as expiações, às consequências de uma vida passada. As provas estão relacionadas ao tipo de vida que o espírito vai ter: onde vai encarnar, com quem, quando, de que forma, em qual sexo, o que terá que enfrentar nesta vida para sua melhoria pessoal, etc.

As expiações, por sua vez, são as consequências dos erros cometidos no passado. A punição às leis violadas. No estado espiritual, resulta em sofrimento moral, arrependimento e tormento espiritual e no estado de encarnado, em sofrimento físico. Estão frequentemente relacionadas às dores físicas, doenças, deformidades, loucura, dificuldades materiais e/ou situações penosas, etc.

Frequentemente, entretanto, essas duas situações se misturam e todos acabam vivendo suas provas e expiações como desafios à superação e ao melhoramento progressivo de si mesmos.

Assim, em essência, a nossa missão nesta vida pode ser definida, como: melhorarmos em inteligência e moral. Simples assim.

* – Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, Allan Kardec

Torteroli

Afonso Angeli Torteroli foi um dos maiores espíritas Brasileiros. Entretanto, seu nome é esquecido. Recentemente, Mauro Quintella vem resgatar essa importante memória ao estudo do Espiritismo no Brasil.

Torteroli ficou conhecido como líder dos “científicos”, quando havia uma intensa disputa entre os espíritas, que de um lado queriam formar uma religião e, de outro, uma ciência.

Travou intenso debate com Bezerra de Meneses. Trabalhou como professor, jornalista e no fim da vida vivia praticamente na pobreza. Doava tudo que tinha aos pobres e fazia peregrinações por bairros distribuindo o pouco que conseguia, uma prova “viva” de que ver o Espiritismo mais como uma “ciência” do que como uma religião não torna as pessoas insensíveis ao bem e ao próximo.

Confira aqui, aqui e aqui, as três partes da sua biografia. 

Pode-se cobrar pela mediunidade no Espiritismo?

Não, não pode. A Doutrina Espírita é bem clara sobre isso:

“ (…) Os médiuns atuais – pois que também os apóstolos tinham mediunidade – igualmente receberam de Deus um dom gratuito: o de serem intérpretes dos Espíritos, para instrução dos homens, para lhes mostrar o caminho do bem e conduzi-los à fé, não para lhes vender palavras que não lhes pertencem, a eles médiuns, visto que não são fruto de suas concepções, nem de suas pesquisas, nem de seus trabalhos pessoais”.

“ (…) A mediunidade não constitui privilégio e se encontra por toda parte. Fazê-la paga seria, pois, desviá-la do seu providencial objetivo”. O Evangelho Segundo o Espiritismo – Mediunidade gratuita, item 7.

Portanto, todo e qualquer médium ESPÍRITA que por ventura cobre (e eu nunca vi isso acontecer) estará incorrendo em falta para com a própria doutrina que diz esposar. E se você souber de alguém que faça isso, é seu dever denunciá-lo perante a comunidade espírita.

Isso não quer dizer, entretanto, que eventos e outras atividades espíritas que envolvam CUSTOS não sejam cobrados. Entretanto, deve-se ficar atento, pois não é preciso um hotel cinco estrelas para sediar um evento… Ademais, de forma geral, o espírita NÃO contribui financeiramente com o grupo que frequenta e o grupo, por sua parte, não pede contribuição, o que é um erro! Se cada pessoa que frequenta um grupo doasse R$ 10,00 por mês, o Centro teria dinheiro para pagar todas as suas contas e realizar muitas obras…

Pensemos: O Código de Ética do médico vale para o médico. O Código de Ética do Psicólogo vale para o Psicólogo e assim por diante. Por que razão o “Código de Ética Espírita” valeria para não-espíritas?

Se um determinado médium NÃO é espírita, por que ele deveria aceitar esse nosso postulado de não se cobrar pela mediunidade? Todo médium profissional é, quase imediatamente, visto como charlatão no meio espírita, o que é um tremendo engano!

Recentemente participei de dois tópicos no facebook sobre médiuns que cobram por seus trabalhos e o que observei foi um desfile de ignorância e ingratidão espiritual.

O primeiro tópico versava sobre Zíbia Gasparetto. Surpreendentemente, muitos de seus leitores parecem desconhecer dois fatos: O primeiro, que ela não seja espírita (ela deixou o Movimento Espírita na década de 1990, trilhando um caminho de espiritualidade livre próprio); O segundo, que ela recebe os direitos autorais de seus livros e, portanto, é bastante rica.

Pessoas que se diziam leitoras de seus livros ficaram inconformadas e revoltadas (se tivessem pesquisado mais, talvez evitassem tanto aborrecimento, pois segundo me consta, ela recebe os direitos de seus livros há várias décadas) e muitos disseram que nunca mais leriam nada que ela psicografasse.

Bem, até aquele momento elas gostavam de seus livros e agora não gostam mais? Os livros deixaram de ser atraentes por causa disso? O que elas aprenderem e o quanto se beneficiaram, será deletado de suas memórias? É óbvio que não.

Eu nunca li por inteiro um livro da Zíbia. E não li por que não gosto de romances. Entretanto, assisto com frequência seu programa e de seu filho, Irineu, na Tv Virtual que fundaram e sempre gostei muito. É preciso dizer, ainda, que embora Zíbia retenha o lucro de suas obras, ela também mantém muitas instituições de caridade.

Muitos que estudaram os livros dela sempre diziam que eram antidoutrinários. Podem ser. Entretanto, certa vez ouvi de um senhor: “Os livros da Dona Zíbia são a porta de entrada para o Centro Espírita em muitos casos”.

Ele tinha razão, vejo isso na prática. Pessoas que leram seus romances e se interessaram mais sobre o Espiritismo, até mesmo visitando um Grupo Espírita para conhecer seus trabalhos. Eles realmente ajudam muita gente chegar até o Centro.

Por esta razão, por que este ódio mal disfarçado contra Zíbia? Eu duvido que muitos autores espíritas de renome não sejam tão antidoutrinários quanto ela e estão aí fazendo Workshop’s (virou moda) e ninguém fala nada.

Aliás, tenho percebido uma tendência curiosa entre os médiuns espíritas. Frequentemente, eles doam os direitos de suas obras mediúnicas. Mas, doam para quem? Para as fundações que eles próprios presidem! Hummm, mas pode isso, Arnaldo? (risos)

Poder, pode. Mas, seria ético? O médium cede o direito autoral… Logo, ele não recebe nenhum lucro de seus livros. Mas, ele cede o direito para a instituição que preside, então, o dinheiro acaba voltando pra ele, por que como presidente, ou qualquer outro cargo de diretoria, ele terá acesso às finanças da instituição e não havendo quem fiscalize (e o público espírita de modo geral não está nem aí para isso, se contentando apenas em saber que os direitos da obra foram cedidos e não como foram aplicados…) que garantia tem-se que não estão se beneficiando desse dinheiro?

Um exemplo. Eu trabalhei em um Grupo Espírita e lá fazíamos a feira da pechincha. Na época, o que fazíamos me parecia plenamente aceitável, mas hoje percebo que foi um erro.

Muitas pessoas doam roupas para Centros que fazem pechincha e os centros lucram bem com isso. Era muito raro uma pechincha em que não se arrecadava R$ 1.000,00 ou mais. Assim, se o Centro realiza quatro pechinchas por mês, ele consegue, pelo menos, R$ 4.000,00 com elas. Porém, o que é que acontecia…

Antes de se abrir as portas para o público (as peças eram vendidas, no máximo, a R$20,00 – Sendo que novas poderiam custar mais de cem), os trabalhadores do Centro tinham o DIREITO de escolher… Eles poderiam escolher o que quisessem antes das demais pessoas poderem escolher.

O resultado é previsível: As melhores roupas ficavam para o pessoal do Centro. Eles se beneficiavam do fato de serem voluntários e tinham vantagem na escolha das roupas. Assim, os voluntários praticamente não comprovam mais roupas para si mesmos, já que conseguiam tudo na pechincha e por um excelente preço. Quando as portas eram abertas, a população ficava apenas com o resto.

E isso não se dava só com roupas. Eu vi televisão, DVD, aparelho de som, computador, todos doados, serem comprados (e nem todos pagavam, diga-se) pelo pessoal do Centro (muitos tendo condição de comprar um novo), enquanto a população que poderia ser beneficiada com esses produtos vendidos a baixo custo, não tinha chance alguma de tê-los.

As pessoas desse Centro não eram bandidas. Eram pessoas que pensavam ter o direito de se beneficiarem por que eram voluntárias. Elas praticavam a caridade (por que estavam ali como voluntárias), mas achavam que tinham o direito de sair na frente, antes do povão.

Isso não é tudo. Eu também vi muitas vezes dinheiro da pechincha ser emprestado, seja para pagar um gás, ajudar a pagar uma conta de luz ou qualquer outra conta pessoal de voluntários do Centro. A maioria devolvida o dinheiro assim que possível, mas nem todos. Eu não tenho nada contra emprestar dinheiro, se esta for uma norma da casa, mas, por que somente para os voluntários? As pessoas que procuram o Centro também não têm contas?

Enfim, fiz esse exame porque vejo um temor exagerado do espírita em relação ao dinheiro, especialmente em casos de médiuns NÃO-espíritas. Adora-se meter o pau na Zíbia ou em outros médiuns pagos, mas não vemos a própria sujeira que existe em nosso meio. E veja, se isso acontece num Centro (e eu não acho que seja incomum), imagine o que TALVEZ não ocorra nas editoras e federações, que lucram milhares (ou milhões) de reais todos os anos e não prestam contas à sociedade?

Em Setembro do ano passado eu fui comprar o livro Nosso Lar, edição comemorativa do filme. O valor R$ 35,00. Chorei. O vendedor fez por R$ 32,00 – observem bem – um livro com quase 70 anos de idade sendo vendido como se fosse um super lançamento Best Seller direto da lista do New York Times… Esse livro já deve ter rendido milhões à FEB, não seria hora de barateá-lo para o povão?

Aliás, recentemente a Folha de São Paulo publicou uma matéria mostrando que a “Indústria do livro espírita” corresponde sozinha por mais de 32% dos livros “religiosos” vendidos no Brasil, estando à frente da venda de livros Católicos e também de Evangélicos. A pesquisa também apontou que o livro Espírita, em média, é mais caro que o livro Católico e Evangélico! A partir deste acessório não opcional (a facada do preço dos livros espíritas) eu passei a comprar livros no site Estante Virtual, usados, em bom estado e com frete costumo pagar menos de R$ 15 reais!

Agora, pense comigo: Com dados tão promissores, você não acha que muita gente ficou tentada a seguir para esse nicho? Será que isso explica a imensa quantidade de obras ditas psicografadas, lançadas todos os dias por médiuns, espíritos e editoras que nunca ninguém ouviu falar? E a qualidade do conteúdo, como fica? Você sabia que não há uma fiscalização sobre o conteúdo doutrinário dos livros? Que qualquer pessoa, de qualquer editora, pode lançar um livro sobre o Espiritismo e afirmar que seja psicografado e NINGUÉM irá investigar isso?

Quando você compra um livro espírita, você se informa sobre a editora? Busca acessar seu site, ler seu estatuto, saber o que ela faz com os lucros? Pois muitos médiuns doam os direitos autorais de seus livros para editoras, que são privadas, e o que muitas delas fazem? Retém 95% da renda para si e repassam 5% para instituições de caridade…

Você já observou que praticamente nenhum Centro é transparente quanto às finanças? Já observou que praticamente nenhuma editora presta conta de seus gastos à população? Já verificou que praticamente nenhuma instituição espírita expõe sua contabilidade? Por que será? – Você decide.

Vídeo que fiz há algum tempo sobre esse assunto:

Viagem Espírita em Uberaba

Aproveitei as férias para conhecer novos grupos em Uberaba. Oficialmente, são 105 grupos existentes. Destes, uns 15 eu já conhecia e aproveitei as férias para conhecer um pouco mais de 10 outros. Como se vê, ainda tem muito chão pela frente…

Nessa minha “viagem” tive a intenção de conhecer os trabalhos, observar como eram realizados, a coerência doutrinária, qualidade do ensino, espaço físico, etc. Enfim, eu queria saber como esses grupos trabalhavam e, a partir do que entendo ser “um bom Centro Espírita”, estabelecer um comparativo entre teoria/prática.

A minha visita confirmou uma antiga suspeita: Os Centros de Uberaba realmente são bons. Há apenas uma exceção. Infelizmente, um dos centros que visitei me parece ser totalmente desestruturado, mas prefiro não citar o nome. As descrições que fiz neste texto serão suficientes para se avaliar caso alguém se aventure por lá.

Entretanto, alguns centros se sobressaíram, aos meus olhos, oferecendo um trabalho espírita de qualidade, muito embora todos, exceto pela exceção comentada, estivessem dentro do “padrão de qualidade”.

A minha observação, contudo, foi defeituosa, pois se baseou em apenas uma visita. O dia da visita era o dia de palestra pública e em todos eu passei pelo passe. Para uma avaliação mais completa, seria preciso visitar tais centros outras vezes e observar os demais trabalhos. É por esta razão, por ter feito apenas uma observação parcial, que não citarei o nome deste centro que me desapontou.

Abaixo, segue a lista, endereços, data de fundação e horário de palestra pública dos centros que visitei e que se SOBRASSAÍRAM ao “basicão”:

  • Centro Espírita Henrique Kruger – Fundação: 12/04/1951 – Rua Passa Quatro, 635 – São Benedito. Palestra pública às terças, a partir de 19h30min.

Este centro se destacou pela qualidade da palestra. Há anos não assistia uma palestra como esta. Em todas, mesmo nos centros que estavam “dentro do padrão de qualidade”, eu encontrei erros doutrinários. Este, não. A palestra, para mim, foi perfeita. Foco em Kardec, linguagem simples, direta. Uma verdadeira instrução. Portanto, se seu objetivo é conhecer o Espiritismo, recomendo muito este centro.

  • Casa da Cultura Espírita de Uberaba – Fundação: 2010? – Rua Tocantins, 285 – Vila Celeste. Reunião pública com psicografia de familiares e orientação homeopática espiritual às sextas, a partir de 19h30min.

A Casa da Cultura Espírita é, de longe, o centro mais comprometido com estudos que conheço. Eles possuem várias turmas de ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita) e a palestra pública que existi foi muito bem embasada em Kardec. Este também é um centro que recomendo fortemente a todos que desejarem conhecer verdadeiramente o Espiritismo e que se comprometem a estudá-lo seriamente.

  • Grupo Espírita Casa Fraterna – Fundação: 24/09/1958 – Rua Gibraltar, 14 – Boa Vista. Palestra pública e passes às segundas, a partir de 19h30min.

Este grupo se destacou pela simplicidade. Foi o Centro Espírita mais simples, tanto pela estrutura, quanto pelos frequentadores, quanto pela palestra. Simplicidade que dá aquele sentimento de boas-vindas e coerência doutrinária. Este grupo me proporcionou um clima quase nostálgico, como o que lemos sobre os centros da década de 50-60, em que as pessoas palestravam compartilhando suas experiências sem querer rezar missa, recomendo fortemente este grupo.

  • Casa Espírita Legionárias do Bem – Fundação: 09/03/1947 – Rua Guianas, 144 – Fabrício. Palestra pública, passes e fluidoterapia às terças, a partir de 19h30min.

Este grupo se destacou pelo acolhimento. De todos os grupos que visitei foi o único que me “notou”. Isto é, as pessoas viram que eu era um estranho e foram prestativas em me esclarecer sobre os trabalhos da casa. Mais de cinco voluntários diferentes, em momentos diferentes, vieram conversar comigo muito solícitos. O trabalho de passes também foi muito acolhedor e amigo. Se você estiver procurando um centro acolhedor e fraterno, recomendo muito este grupo.

  • Centro Espírita Aurélio Agostinho – Fundação: 18/06/1920 – Rua Lucas Borges, 61 – Fabrício. Palestras públicas e passes às segundas e sextas, a partir de 19h30.

Este grupo se destacou pelo clima de paz e tranquilidade. É de longe o Centro Espírita em que mais me senti sereno. Foi o primeiro centro que eu conheci, portanto, não se trata de uma única impressão. Sempre que o visito sinto-me muito bem e protegido. Se você estiver buscando paz espiritual, recomendo muito este grupo.

  • Casa Espírita André Luiz – Fundação: 13/02/1958 – Rua México, 437 – Jardim Espírito Santo. Palestra pública e passes às quartas, a partir de 19h30min.

Este grupo se destacou pela fé. Foi o grupo em que mais encontrei pessoas que transbordavam fé. Aquela fé viva que vemos em romances. Pessoas que estavam embebidas em ideal espírita. Outro ponto que me chamou atenção é que este centro é, estruturalmente, muito organizado. Foi o centro mais bem cuidado e limpo que encontrei. Tudo estava impecável, esteticamente falando. Se você estiver em busca de fé, de conviver com pessoas com convicção espírita, recomendo este grupo.

Considerações

O título deste texto é uma alusão a um projeto empreendido por Kardec, em 1862, que consistia na visitação a diversos grupos Frances. Quero deixar claro (se ainda não ficou) que todos os centros visitados, com exceção de um, estiveram dentro do “padrão de qualidade espírita”*, que, em suma, se trata de fidelidade e coerência com a proposta espírita de Kardec. Os centros aqui citados foram apenas o que sobressaíram, aos meus olhos… Portanto, uma opinião. Sem dúvida devem existir outros grupos tão bons ou mesmo melhores do que estes, porém, eu ainda não os conheço.

Para encerrar, gostaria de propor uma reflexão: Vocês notaram algo de “comum” nestes centros? Sim, a data de fundação! À exceção da Casa da Cultura Espírita, que se não me engano foi fundada em 2010, todos os demais são centros bem antigos, década de 20 à 50 do século passado.

Como visitei vários centros, observei que o “padrão de qualidade” é mais alto em centros formados na década de 1940-1950 e bem menor, embora dentro do “aceitável”, em centros fundados na década de 1980-1990.

A hipótese que arrisco é que estes centros mais antigos, formados na época de preconceito e intolerância, conseguiram construir uma base cultural-doutrinária mais sólida, enquanto grupos formados mais recentemente, nem tanto. Também observei que o “padrão” caia vertiginosamente em grupos criados entre 1990-2000, chegando quase ao limite do que considero “aceitável”. Há exceções, obviamente.

Nota: Por “padrão de qualidade espírita” refiro-me a centros que mantém uma orientação de trabalho genuinamente espírita.