ANÁLISE DE LIVRO: O GUARDIÃO DA MEIA-NOITE – DE RUBENS SARACENI

guardiaoQuando foi lançado, na década de 1990, este livro causou, ao mesmo tempo, reboliço e curiosidade. Reboliço, pois “psicografia era coisa de espírita”, apesar de o próprio Zélio ter psicografado várias mensagens e, curiosidade, por que trazia informações muito interessantes sobre o Mundo Espiritual e sobre a Umbanda.

Rapidamente o livro se espalhou e se tornou um sucesso de vendas. Ainda hoje podemos encontrar exemplares em qualquer loja de artigos religiosos de Umbanda.

Segundo estimativas, o livro já vendeu em torno de um milhão de cópias e como há, segundo o censo, apenas 497 mil Umbandistas no Brasil, obviamente que simpatizantes ou curiosos em relação à religião já o tiveram entre as mãos.

Há muito tempo conheci o livro, mas não encontrava ânimo para lê-lo. No entanto, como prometi estudar mais profundamente a Umbanda este ano (2016), resolvi começar por um clássico.

É compreensível que o livro tenha caído no gosto popular, dado ser de fácil leitura, sem expressões complexas ou descrições mirabolantes que causem sono. É tudo muito simples, direto, sem muito rodeio.

A primeira impressão que tive é que o autor espiritual não se importou muito em fornecer detalhes. Há poucas descrições das situações, pessoas, lugares, etc. O autor se preocupa mais em frisar diálogos do que descrever cenários, o que pode ser bom ou ruim dependendo do seu gosto literário.

Pessoalmente, senti falta de descrições mais detalhadas. Em algumas partes é preciso ler mais de uma vez, pois de um parágrafo para outro, podem se passar vários anos sem maiores esclarecimentos.

A história, em si, é bastante curiosa. Trata-se de um nobre Brasileiro, um Barão, senhor de muitas terras e escravos, nascido no ano de 1716 e que, cansado das aventuras da nobreza, resolve se casar com uma adolescente de 15 anos de idade, vinda diretamente de família nobre de Portugal. Se você for do tipo mais atento, perceberá uma inconsistência entre as datas mencionadas e a idade dos personagens, mas nada que atrapalhe a leitura…

Toda a vida de Bom-Vivant do barão vai por água abaixo no instante em que ele descobre que sua esposa não era virgem, embora ela jurasse o contrário. A partir daí, ele elabora um plano macabro e todo enrolado, próprio de mentes infantis, para tirá-la do seu caminho sem que sua reputação seja manchada perante a sociedade.

Um ponto positivo é que o livro deixa bastante claro que um simples ato errado, na hora errada, é capaz de fazer girar uma engrenagem de tragédias de conseqüências imprevisíveis…

A primeira metade do livro, apesar das descrições secas, rápidas e pouco envolventes, é relativamente interessante. Quando comecei a lê-lo, tive a impressão de que a história seria forçada demais para ser realidade. Repeli, a princípio, a veracidade da mesma, pois não conseguia imaginar alguém capaz de tantas trapalhadas em tão pouco tempo… Mas, obviamente existem pessoas que são mesmo capazes de fazer essas escolhas e então reconsiderei minha leitura do livro.

Arrependido dos seus atos e em busca da esposa, o Barão consegue elevar seu “credicarma” a um nível assombroso, pois ele passa de Bom-Vivant a mandante de massacres em poucos capítulos.

Após a morte, as narrativas do que se sucederam ao seu despertar no mundo espiritual são realmente interessantes e esta obra tem o mérito de ser uma das poucas que falam abertamente sobre involução espiritual, conceito, aliás, que as entidades também já me falaram, mas que nunca havia visto em livro algum.

O último ponto positivo, para mim, é que o autor conseguiu resumir de formas simples várias leis espirituais e abordou aspectos da organização das equipes de trabalho que, a meu ver, eram novidades até aquele tempo, como a grande força do Oriente, por exemplo, desconhecida para mim até o momento da leitura deste livro.

Mas, aí começam os problemas.

O ponto que mais me chamou a atenção em tom negativo é a estranha moral que ele descreve. Há momentos em que se fala abertamente uma coisa que, no parágrafo seguinte é desdito, mostrando espíritos que agem de forma cruel como “executores” de uma lei Divina…

Na segunda metade do livro, o caráter moral de alguns personagens me deixou confuso. Eu lia várias vezes para realmente crer que havia lido corretamente. Vamos a alguns exemplos:

“Por isto lhe digo, Guardião da Meia-Noite, há os anjos e há os demônios. Os anjos habitam na Luz e os demônios nas Trevas. Uns não condenam aos outros pois sabem que são o que são porque assim quis o Criador.” PAG. 68 (versão em PDF).

Bom, a primeira parte da sentença já é estranha, ou seja, a afirmação da existência anjos e demônios… Mas, a segunda, é ainda mais estarrecedora: O Criador (Deus) quis que demônios fossem assim? Essa revivescência da mitologia Católica que perpassa todo o livro, inclusive, com a presença de Lúcifer (o próprio), é simplesmente incompatível com as revelações espirituais que se tem recebido em todo o mundo há pelo menos cem anos…

Outro exemplo:

“Não ajudo a morrer quem quer viver, mas não deixo vivo quem quer se matar.” Pág. 62 (versão em PDF).

Então, se alguém quiser morrer esse exu ajudaria? Isso não faz o menor sentido…

“A Lei não os perdoou e os entregou a mim. Eu dou-lhes o que merecem porque sou um guardião da Lei das Trevas e esta é minha função.”

Esta citação é um verdadeiro caos moral. O sujeito que a proferiu, um dos grandes exus, vê-se na condição de agente executor da Lei Divina, livre, inclusive, de responsabilidade pelo mal que faz aos espíritos, veja:

“Não faço chorar o inocente, mas não deixo sorrir o culpado. Não liberto o condenado, mas não aprisiono o inocente. Não revelo o oculto, mas não oculto ao que pode ser revelado. Não infrinjo à Lei e pela Lei não sou incomodado.” Pág. 67 (versão PDF)

Continuando:

“Eu aceito, Guardião. Mas fica em aviso: se houver traição, o culpado pagará com a própria existência.” Pág. 76 (versão PDF)

Como assim? Um espírito mataria outro?

Enfim, amigo leitor, essas citações bastam. 

CONCLUSÃO.

O livro Guardião da Meia-Noite é um marco na literatura Umbandista e sem dúvida um Best-seller do gênero. Contudo, só recomendo sua leitura aos mais instruídos, pois o conteúdo moral que ele possui, especialmente na relação que faz entre espíritos de luz e das trevas é, a meu ver, bastante caótica e distanciada da minha experiência como médium Umbandista e médium de exu.