A Brincadeira do copo: fatos e mitos

copo

A brincadeira do copo é uma variante Brasileira da famosa tábua Ouija, uma prancheta contendo as letras do alfabeto de forma semicircular, as palavras “sim” e “não”, “olá” e “Adeus”, bem como números de zero a nove, onde um grupo de pessoas se reúne em torno, fazem uma evocação e ao tocar a tábua de indicação (normalmente em formato triangular com um furo no meio), um suposto espírito guia o movimento até a letra, número ou palavra que quisesse indicar.

Na brincadeira do copo, normalmente, utiliza-se somente as letras do alfabeto dispostas em um círculo, tendo um copo virado de boca para baixo numa superfície lisa (mesa, balcão, etc). Os participantes se reúnem, chamam por algum espírito, tocam o copo com o dedo e aguardam até que as mensagens surjam.

Esta brincadeira é frequentemente praticada por adolescentes e surge com frequência nos estudos espíritas, especialmente quando há iniciantes curiosos sobre o processo. O que espanta, contudo, é a quantidade de informações desencontradas que os próprios espíritas passam sobre o assunto, resultado da falta de um estudo mais aprofundado sobre o tema.

Recentemente, a rede Mundo Maior (uma rede de Tv Espírita) exibiu um programa com o título: Brincando com os espíritos. Foram abordados diversos assuntos, tanto sob a ótica espírita, quanto espiritualista, quanto cética (o que é bom) e o programa me pareceu muito bem feito. Contudo, algumas pessoas convidadas a falar sobre o tema, sob a ótica espírita, terminaram por fazer confusões e afirmações estranhas, dando ainda mais um ar tenebroso e sobrenatural ao processo que é perfeitamente explicado pela Doutrina Espírita.

Para não alongar o texto, vou me ater às principais questões da problemática:

  1. A Brincadeira funciona mesmo?

Dificilmente. Apesar dos espíritos estarem em toda parte, nos influenciando constantemente (LE, 459), isso não quer dizer que, a todo momento, eles possam se manifestar. E não podem se manifestar por que nem sempre encontram os meios para que isto ocorra. Portanto, não basta haver espíritos, se não houver um médium, a manifestação não ocorrerá.

Por esta razão, a imensa maioria das tentativas dessa brincadeira não resultarão em efeito algum.

2.   Como o espírito faz o copo se mexer?

Em algumas situações, bem raras, eu diria, poderíamos encontrar numa dessas brincadeiras os elementos necessários para que houvesse manifestação: um espírito que queira se comunicar, os meios materiais para isso (copo, uma mesa, as letras, etc) e um médium de efeitos físicos no local ou próximo dele, fornecendo os elementos fluídicos para realização do fenômeno (LM, capítulo XIV).

Supondo haver todas essas circunstâncias, o espírito uniria seu fluido (alguns preferem chamar de energia) ao fluido do médium de efeitos físicos (um tipo bem raro), formando uma nova substância, meio espiritual, meio material ou simplesmente: semimaterial.

Posteriormente, envolveria o copo com essa substância e, a partir daí, com a força do seu próprio pensamento (ele não precisa segurar o copo) poderia fazer movê-lo de um lugar para outro. Quanto maior a “força fluídica” envolvida no processo, mais característicos seriam os movimentos.

Como se vê, o responsável pela movimentação do copo é o espírito e não as pessoas envolvidas. Portanto, não haveria nenhuma razão para que se tocasse o copo com os dedos. Aliás, fazer isso é contribuir para que, possivelmente, o fenômeno não seja mais do que um movimento inconsciente dos próprios participantes…

3.   Qual o objetivo dessa brincadeira?

Como o próprio nome diz: brincar, descontrair. Pessoalmente, acho que o ponto alto da brincadeira é o clima de tensão e a constante perspectiva de presenciar um fenômeno legítimo. Isso mantém as pessoas excitadas e expectantes.

Contudo, é preciso destacar que, a prática, em si, pode, muito bem, ser empregada com um fim de estabelecer uma comunicação espiritual genuína. E muitos sistemas semelhantes foram empregados no passado (LM, Capítulo XI). Entretanto, métodos dessa natureza caíram em desuso por serem muito demorados (imagine quanto tempo se levaria para formar uma frase completa), de modo que os espíritas e espiritualistas, em geral, preferem se utilizar de médiuns de efeitos inteligentes (LM, item 37).

4.   A brincadeira do copo representa algum risco?

Esse é um dos pontos curiosos. Podemos perceber que os Americanos possuem uma verdadeira ojeriza em relação a tábua Ouija, como se fosse um objeto perigoso. Parte dessa cultura do medo também se espalhou pela brincadeira do copo, tornando-a objeto de contos terríveis. O que impressiona, todavia, é encontrarmos espíritas reproduzindo essas falsas informações.

Costuma-se dizer – e eu já escutei isso com frequência – que a brincadeira do copo nos predispõe à influência de maus espíritos, descompromissados e que se aproveitam da credulidade e da abertura a essa prática para nos influenciar.

A primeira objeção a essa ideia é que a influência dos maus espíritos, assim com a dos bons, além de ser um processo absolutamente natural, se dá em razão da nossa “sintonia mental”. Logo, para que eu seja influenciado, de modo bom ou ruim, basta que meu pensamento a isso esteja dirigido, esteja eu onde estiver, fazendo o que estiver fazendo. Portanto, o copo ou a tábua Ouija são absolutamente irrelevantes neste processo.

A segunda objeção é que a obsessão (LM, capítulo XXIII) se dá através de laços morais. Portanto, a vítima de obsessão, em essência, é uma pessoa profundamente ligada, de um modo ou de outro, ao espírito que a vitimiza. Essa ligação, frequentemente, se dá em razão de outras vidas ou, quando estabelecidas nessa vida, tendem a surgir de algum desconforto criado entre ambos, como um ex-marido que persegue a mulher que resolveu se casar com outro após a sua morte ou uma pessoa a quem fizemos mal e que, livre do copo, procura nos prejudicar, etc.

Não resultará em obsessão o simples fato de reunir-me com meia dúzia de amigos com mais interesse em nos assustarmos do que, de fato, presenciar algo espiritual. A maioria das brincadeiras não resultará em nada e algum engraçadinho terminará por mover o copo ele mesmo.

5.   Então, não há nenhum perigo?

Na questão anterior, afirmei que o simples fato de fazer a brincadeira não resultará em nenhum prejuízo. E digo isso em oposição ao absurdo que alguns espíritas insistem em dizer (alguns dos quais argumentei acima), tentando infundir medo nas pessoas para “não mexer com essas coisas”. Tolice.

Contudo, há um porém. Esse porém surge quando o fenômeno é genuíno (e, lembre-se, na imensa maioria das vezes, não será). Quando, de fato, existem todos os elementos presentes a ponto do fenômeno se concretizar (e, lembre-se, não precisa tocar o copo) e o fenômeno de fato acontece: bem diante de seus olhos, o copo se move, lentamente, de um lado para outro.

O próprio título da prática já explica seu propósito: brincar. Ora, sabemos que o Mundo dos Espíritos é povoado por todo tipo de espíritos: bons, maus, neutros, brincalhões, sábios, ingênuos, ignorantes, etc. Logo, que tipo de espírito se prestaria a participar de uma brincadeira sem finalidade útil alguma?

Esse espírito poderia, se for bastante perverso para isso, e desde que as brincadeiras se intensifiquem a ponto de se transformar em verdadeiras sessões, infundir na cabeça das pessoas participantes as mais tolas ideias. Eu me recordo de uma pessoa assustada, que conheci há anos e que durante uma brincadeira dessas, que ela já havia tornado quase um ritual semanal, obteve o nome “Lúcifer”, quando perguntou com quem se comunicava…

Esse tipo de espírito, pouco a pouco, poderia fascinar o grupo (LM, 239), através de falsos ensinos, ordens descabidas, pedidos ridículos e mesmo convencer as pessoas participantes a cumprirem seus desejos. Onde algo assim poderia dar? Use sua imaginação…

Portanto, existe, sim, um perigo real. Mas, esse perigo só surge quando verdadeiramente há manifestações e essas manifestações, tornando-se constantes se transformarem em sessões regulares, produzidas por pessoas sem conhecimento de causa, com intenções fúteis, podendo, assim, tornarem-se presas fáceis de espíritos brincalhões, pseudossábios ou mesmo perversos, que poderiam abusar dessa credulidade tornando-as seus joguetes.

Isso não se restringe somente à brincadeira do copo. Vale também para a mediunidade. Não há nenhum impedimento para praticar a mediunidade em casa. O problema surge quando a prática mediúnica é conduzida por pessoas sem conhecimento de causa ou envolvidas por intenções fúteis. Tal despreparo pode colocá-nas na mira de algum espírito manipulador, sempre pronto a lhe enganar e se divertir.

6.   Você já fez a brincadeira?

Na minha adolescência, como muitos, me interessei por este assunto. Juntamente com alguns amigos tentamos por meses algum contato e nada. Fizemos de tudo: reuníamos à noite, colocávamos cristais em volta do copo – nada, absolutamente nada! Até que um dia… ou melhor, uma noite, estávamos sozinhos em casa e tentamos mais uma vez. O copo permaneceu parado, porém, ouvimos um barulho no fundo do quintal, como se uma pá de lixo (dessas de metal) tivesse caído no chão.

Com medo – muito medo – levantamos e fomos verificar: nada. Voltamos mais aliviados e sem entender, pois o barulho foi muito alto, quando percebemos um ruído estranho. Chegando perto da mesa, que era de pedra de mármore sobre estrutura de alumínio, percebemos que o copo, também de alumínio (e que não estava virado com a boca para baixo), vibrava freneticamente. Parecia que um pequeno terremoto estava agitando-o, embora tudo o mais estivesse imóvel.

Olhamo-nos sem entender o que ocorria. Meus amigos ficaram petrificados de medo. Meu coração parecia bombear sangue congelado e, mesmo assim, resolvi me aproximar. Quando cheguei perto, um amigo disse: “Deve ser a mesa que esta balançado, pois quando levantamos, esbarramos na pedra e ela está vibrando o copo”.

Coloquei a mão na mesa e ela estava imóvel e o copo ainda vibrando muito. Quando estendi a mão para tocá-lo, subitamente parou. Cena digna de filmes de terror: todos nos assustamos e corremos para fora de casa, eufóricos.

Isso aconteceu há uns 15 anos e até hoje eu não sei explicar por que, naquela noite, a brincadeira deu certo (ainda que o copo não tenha se movido, apenas vibrado) e nas demais tentativas, não. Imagino que, próximo a minha casa, estivesse algum médium de efeitos físicos, mesmo que não soubesse que era um (RE, 1858, Maio).

7.   Palavras finais

Com sabedoria, Kardec dizia, frequentemente, que havia um fundo de verdade nos contos fantásticos. É isto que ocorre aqui. Existe um fundo de verdade. Porém, esse fundo, é com frequência distorcido, amplificado, tornado uma aberração, uma esquisitice medonha e assustadora, embalada por uma cultura imediatista que, apesar do tempo, não consegue ver os espíritos além de duas coisas: diversão e medo.

8.   Sugestão de leitura?

Para entender esses fenômenos, basta consultar O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec e para conhecer casos reais de efeitos físicos, basta consultar os volumes da Revista Espírita, também de Allan Kardec, principalmente referente ao ano de 1858.

7 comentários sobre “A Brincadeira do copo: fatos e mitos

  1. Eu nunca fiz essa brincadeira por medo. Mas o medo que tenho é de não conseguir ter contato com algum espírito ou presenciar algum fenômeno paranormal espiritual. Seria a constatação da não existência de Deus, vida após a morte, etc.

    • Possivelmente, não terá contato algum. Se leu o texto, verá que é muito difícil ter as condições corretas para que o fenômeno ocorra.

  2. Ja fiz isso um colega me passou mal e foi pro hospital ele ta bem hoje trosso me pertubaram fiquei com medo meus colega no outro dia se reuniram de voltar e pediram pra deixar agente em paz e o tabuleiro vuou na nossa cara entao bptamos fogo hoje tao muito feliz amor deus sei que ele nao ia deixa isso acontecer so foi um susto nao brinque dessa brincadeira meu cplegas estao brincando charli charlie mas deus e fiel

  3. Gostaria de tirar duvidas com quem fez a matéria seja por e-mail ou qualquer outra forma. Resolvi fazer essa brincadeira com meus amigos, e sempre da certo. Sempre que perguntamos aos espíritos sobre quem e o médium, ele diz que sou eu! Tenho vídeos das brincadeiras, estavam se tornando frequente, mas como o último pediu ajuda, demos um aparada, seria grato se pudessem me ajudar!

    • Olá, Edson.

      Pode ser que seja um espírito que vocês conhecem ou que propositalmente diz isso para confundi-los. Não convém brincar com coisas sérias, então, melhor mesmo parar…

Ao longo dos anos, percebemos que responder aos contraditores, quase sempre munidos de paixão pessoal, nos custava tempo e energia que poderiam ser aplicados em algo mais útil. Por essa razão, não respondemos ataques. Ofensas serão deletadas.

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