Chico Xavier e a Revista Realidade

Resolvi pesquisar sobre um assunto que de vez em quando acabo topando, mas que nunca havia pesquisado com profundidade. Trata-se de uma tentativa de desmascarar a mediunidade de Chico Xavier feita pelo repórter José Hamilton Ribeiro.

A reportagem saiu na revista Realidade – Novembro, 1971. A reportagem, muito bem escrita, narra o acompanhamento do repórter durante uma visita aos trabalhos do Chico, inclusive, convidado para almoçar e acompanhar boa parte do dia do médium.

Na tentativa de emplacar um belo sucesso editorial – e ele conseguiu –  o repórter reinventa, embora modestamente, a tática que David Nasser e Jean Manzon tentaram, décadas atrás: criar uma mentirinha para desacreditar o médium.

Esses repórteres da então revista O Cruzeiro, publicaram uma matéria que depreciou muito a figura de Chico Xavier. Tecendo considerações nada respeitosas, coloridas entre elogios diretos e alfinetadas evidentes, leem-se palavras como: profeta e ingênuo.

Sugeriram, entrelinhas, que o Chico sabia um pouco de inglês, francês, que lia muito e que tinha uma porção de livros, como a justificar seu talento literário. Aliás, é curioso como tentam desqualificá-lo, enquanto médium, ao admitirem seu brilhantismo, enquanto autor multigênero. Vai entender…

Contudo, é importante dizer o seguinte: A educação daquela época privilegiava línguas estrangeiras. Meus avôs diziam ter estudado um pouco de Francês na escola pública. Então, qual o problema?

E nesse tiroteio, pró e contra o Chico, é curioso observar duas posturas antagônicas:dos espíritas que defendem Chico com unhas e dentes a dizer que não possuía livros, que quase não lia, que não tinha tempo para nada e dos críticos que sempre falavam sobre suas estantes cheias de livros, de sua excelente memória e de seu talento literário.

De minha parte, penso que a versão mais honesta é um misto dos dois: Chico trabalhava o dia todo, tinha muitas tarefas caritativas, psicografava horas intermináveis e no pouco tempo que lhe restava, lia. Em que isso pese como demérito?

Nasser a Manzon, a fim de não se denunciarem quanto às suas intenções, fingiram-se de estrangeiros, deram nomes falsos e conduziram a entrevista sobre o médium. Ao final, despediram-se e, antes de partirem, ganharam, cada um, um livro de presente. Foram embora absolutamente convictos de que o Chico era uma pessoa boa, mas no mínimo, desequilibrado mentalmente.

Algum tempo depois, eis que Manzon liga para o Nasser perguntando se ele havia lido a dedicatória que o Chico fez nos livros que ganharam. Ao saber que não, pediu que o fizesse. Lá, a surpresa: a dedicatória, assinada por Emmanuel, dava os nomes verdadeiros dos repórteres.

Confira na própria voz do Nasser:

Voltando à revista Realidade, José Hamilton resolve pedir uma orientação espiritual para um tal de Pedro Alcântara. No pedido, coloca também o endereço. O problema é que tal pessoa nunca existiu, nem o endereço.

Para surpresa do repórter, ele recebe uma orientação psicografada, dizendo o seguinte:

Junto dos amigos espirituais que lhe prestam auxílio, buscaremos cooperar espiritualmente em seu favor, Jesus nos abençoe”.

Ele ficou um pouco desapontado e ao final, termina a reportagem com uma frase enigmática:  O que pensar disso?

A matéria escrita por José Hamilton foi bem menos sensacionalista que a de David Nasser. Contudo, não escapou de dar umas alfinetadas bem maliciosas. Se ele quis inculcar a dúvida em seus leitores, conseguiu. Tão logo saiu a reportagem, várias pessoas começaram a dizer que o Chico foi pego em fraude, pois que psicografou uma mensagem de/ou para alguém que não existia.

Isso se tornou, desde então, repertório quase certo para quevedistas e antiespiritas. Contudo, ao se analisar a matéria por completo, percebe-se que o que houve não foi mais do que uma reedição do episódio ocorrido com David Nasser e Jean Manzon. A referida nota espiritual (não uma mensagem psicografada como se fosse o tal Pedro Alcântara ou para ele) provavelmente se referia ao próprio José Hamilton, um indicativo de que os espíritos o ajudariam, naquilo que pudessem.

Ora, se fosse uma psicografia de Pedro Alcântara ou uma carta de sua mãe, por exemplo, aí sim teríamos um belo problema e o Chico teria que se explicar. Entretanto, como visto, não se trata disso. Não é uma psicografia desse espírito nem para ele, é apenas uma breve nota espiritual para o repórter.

Esclarecido esse engano é preciso dizer que, conforme nos ensina Kardec, não há médiuns perfeitos. O próprio Chico, no livro, No Mundo de Chico Xavier, de Elias Barbosa, afirmou ter sido enganado mais de uma vez por espíritos.

É claro que, do ponto de vista materialista, qualquer erro em psicografia será visto como charlataria, pois não levam em consideração os problemas inerentes ao intercâmbio mediúnico e acham que se alguém é médium, não pode ser enganado e poderá, a qualquer momento, comunicar-se com espíritos.

Entretanto, do ponto de vista espírita, há muitos fatores. Temos que considerar a interferência natural do médium; a interferência no ambiente psicográfico; a presença e/ou comunicação de espíritos brincalhões e pseudosábios e, por fim, a mistificação e a obsessão.

Não há médiuns perfeitos e o Chico não era perfeito. Assim, vejo com muita reserva o ufanismo que hoje se levanta em memória de Chico Xavier, sempre o defendendo de uma forma que beira a idolatria e negando fatos hoje amplamente reconhecidos, como o de que ele sabia um pouco de Francês e Inglês e que possuía vários livros em sua coleção – como se fosse preciso negar essas coisas para justificar sua mediunidade – e, por outro lado, a má vontade dos antiespíritas que, à espera de qualquer brecha, atiram pedras sem maiores considerações.

Ao longo dos anos, percebemos que responder aos contraditores, quase sempre munidos de paixão pessoal, nos custava tempo e energia que poderiam ser aplicados em algo mais útil. Por essa razão, não respondemos ataques. Ofensas serão deletadas.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s