Não: seu filho não é uma criança índigo!

Autêntico Índigo

                                                                Autêntico Índigo…

Por volta do ano 2005, um assunto intrigante começou a rodar pela rede social Orkut (R.I.P). Não demorou e apareceu também em blogs e sites especializados em temática espírita. Tal assunto era definido por duas palavras bastante enigmáticas: crianças índigo.

A ideia começou a ganhar fôlego e  personalidades de peso, como Divaldo Franco, entraram na onda. Começaram a surgir livros e DVD’s e rapidamente o assunto chegou às casas espíritas e se espalhou.

Muitas mães, eufóricas, ficaram, ao mesmo tempo, extasiadas e estarrecidas com a possibilidade de seus jovens filhos serem índigos e temiam o desafio que teriam pela frente para educá-los.

Mas, afinal, o que seria uma criança índigo?

A ideia que se propagou no Movimento Espírita Brasileiro não tem muito a ver com a ideia original, importada direta da terra do tio Sam – que nós esclareceremos logo mais.

Contudo, a versão “vendida” no Brasil naquele tempo (e às vezes ainda vejo-a desfilar lindamente por aí), era mais ou menos a seguinte:

– Espíritos mais elevados estão reencarnando na Terra. Essas crianças se revelam precocemente como de uma alta inteligência e algumas de excelentes qualidades morais. São capazes de dialogar com adultos como se fossem também adultos e isso seria o marco inequívoco de que a Terra estaria, em fim, adentrando uma etapa de regeneração.

A princípio a ideia era charmosa e cativou muitas pessoas. Afinal, que mãe babona não gostaria que seu filhinho fosse, na verdade, um lindo anjinho vindo de algum sistema solar distante ajudar a humanidade a superar-se?

E pelos próximos dois anos seguintes a ideia vendeu como água e muita gente se deixou embarcar nessa “viagem”…

Por volta de 2007, contudo, uma nova “versão” dessas ideias começaram a circular pelo Movimento. Em suma, ela dizia mais ou menos o seguinte:

– Bem, algumas crianças índigo são mesmo espíritos muito adiantados intelecto/moralmente, mas alguns desses espíritos podem se sentir pressionados a viver num mundo que não compreende seus elevados pensamentos. Ao chegarem à adolescência, podem se tornar rebeldes, usar drogas e, até mesmo, matar os pais.

Então, uma nova onda de preocupação avassalou o Movimento. Se, por um momento, se desejou ter um índigo em casa, agora a coisa invertia e era melhor ficar bem atento. Essa neurose coletiva fez surgir uma série de artigos terapêuticos visando ensinar aos pais como educar seus filhos índigos. A indústria mudou de foco: da euforia, para o medo. E funcionou.

Em meados de 2007, contudo, um grupo de espíritas sérios resolveu jogar água na fogueira e colocar o assunto em termos claros: a ideia das crianças índigo era uma tolice e seu objetivo era apenas fazer dinheiro. Havia outro lado dessa história que ninguém contava (por ignorância ou omissão – você decide), que simplesmente revelava a fragilidade dos argumentos originais de tal ideia.

Rita Foelker, Dora Incontri, Heloísa Pires, Paulo Figueiredo, entre outros, publicaram uma edição especial do jornal “Mensagem”, originalmente publicado por Herculano Pires. Esta edição, em comemoração aos 150 anos do Espiritismo, continha uma série de artigos em que estes autores demonstravam por que a ideia de crianças índigo era incoerente com a proposta espírita e, mais, mostravam a origem dessa ideia.

O artigo teve efeito de uma bomba e, repentinamente, os grandes do espiritismo que falavam de boca cheia no tema se calaram até quase não tocarem mais no assunto. Contudo, o estrago estava feito e, ainda hoje, esse tema aparece, principalmente para o iniciante, que fica confuso ao tentar entendê-lo.

Vou tentar extrair do artigo os pontos principais em forma de perguntas e respostas, onde se poderá ver com clareza o absurdo por trás desta ideia. É importante que o artigo seja lido, pois isto é apenas um pequeno recorte interpretativo.

Por que crianças índigo?

Índigo ou anil é um tipo de azul bem escuro. A vidente Americana Nancy Ann Tappe, dizia que algumas crianças tinha uma aura de cor azul bastante escura.

Como essa ideia surgiu?

Por volta de 1989, um economista Americano chamado Lee Carroll, foi avisado por uma sensitiva que era acompanhado por uma entidade extraterrestre chamada: Kryon.

Lee passou a canalizar (termo que os Americanos usam para as pessoas que supostamente estabelecem comunicações com E.T’s) a entidade e juntamente com sua ex-esposa, Jon Tober, fundaram um grupo esotérico onde as mensagens de Kryon circularam até se transformarem em livros e serem vendidos pelo mundo.

E quem é Kryon?

O site oficial do grupo o define assim:

 “Kryon é o mais evoluído ser de luz a que a Terra jamais teve acesso. Proveniente do ‘Sol Central’, com a função primordialmente técnica ligada ao ‘serviço eletromagnético’. Foi enviado por um grupo de ‘Mestres Extrafísicos’, chamado ‘A Irmandade’. Veio dessa vez para reordenar a ‘rede magnética planetária’, visando uma série de mudanças magnéticas no eixo da Terra, que se encerrará no ano de 2012”.

Entendeu alguma coisa? Eu também não…

O que Kryon ensina?

“Os seres humanos que vivem na Terra eram anjos muito evoluídos que assinaram um contrato para vivenciar uma experiência humana no planeta Terra, motivo pelo qual seríamos honrados e celebrados em todo o Universo.”

E onde entra dinheiro nisso tudo?

Segundo Kryon, as pessoas que nasceram antes de 1987 não são índigo (como eu). Contudo, todavia, entretanto… Nem tudo está perdido! Você pode se tornar um índigo se você tiver intere$$e.

O grupo Kryon criou (?) uma empresa “A Energy Extension In-corporation”, que através dos métodos: “Calibra-tion Lattice®” e “EMF Balancing Technique®”, de alguma forma (não pergunte como!), conseguem transformar não-índigos em índigos e, claro, isso é pago!

Se tudo que foi dito até aqui não tiver sido suficiente para mostrar a você a furada que é essa ideia, considere que a versão Brasileira está toda maquiada e alguns termos mais próximos foram inseridos, como chamar Lee de médium, etc.

Então, por que personalidades espíritas promoveram essas ideias?

Particularmente, acredito que devido ao entusiasmo sem conhecimento de causa. Pegaram essa versão espiritizada das crianças índigo (em que até se poderia fazer um paralelo com o capítulo 29 de A Gênese, de Allan Kardec), e começaram a divulgá-la como uma grande novidade. Mas, como vimos, a coisa não era bem assim.

Fica ainda o alerta: não é porque um médium famoso, um palestrante ou mesmo um espírito divulga uma ideia, que ela seja verdadeira. É preciso, antes de tudo, estudar!

Para completar, a vidente Nancy Ann Tappe, que criou o termo “crianças índigo”, diz o seguinte a respeito delas:

 “Todas as crianças que mataram colegas de escola ou os próprios pais, com as quais pude ter contato, eram índigos. Eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo. Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá-lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo”.

É isto que você aprendeu no Espiritismo sobre o comportamento dos espíritos mais adiantados?

Portanto, digo sem receio a todas as mães: Seus filhos não são índigos. Deixem essa fantasia de lado.

2 comentários sobre “Não: seu filho não é uma criança índigo!

  1. Amigo, bom texto, claro e conciso. Mas vc usou digamos somente do lado místico da coisa. Já que vc é estudante de psicologia, gostaria de ver vc tratando do assunto ligado as crianças diagnosticadas com TDA E TDAH e o uso da Ritalina. Abraço.

Ao longo dos anos, percebemos que responder aos contraditores, quase sempre munidos de paixão pessoal, nos custava tempo e energia que poderiam ser aplicados em algo mais útil. Por essa razão, não respondemos ataques. Ofensas serão deletadas.

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