Arquivo mensal: novembro 2013

Há Karma para o Espiritismo?

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Frequentemente vemos no meio espírita o emprego do termo Karma ou Carma, como sinônimo de provas e expiações, um conceito espírita. Contudo, seria correta essa correlação?

O primeiro ponto a ser esclarecido é que Kardec jamais utilizou o termo Karma ou fez qualquer associação dele com o Espiritismo. Em segundo lugar, devemos recordar a primeira lição que Kardec deixou para os espíritas:

“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras”. O Livro dos Espíritos.

E isso por uma razão muito simples: nossa língua é imperfeita! Temos muita dificuldade para traduzir determinados conceitos, situações, vivências e sentimentos em palavras. Imagine, então, se cada um começar a dar significados múltiplos – por qualquer motivo – às palavras cujo uso já está consagrado na cultura? O resultado só poderá ser confusão.

Por fim, é preciso entender o que de fato significa o termo Karma. Segundo o Colegiado Buddista Brasileiro, em sua definição sobre reencarnação (na verdade, renascimento), encontramos o seguinte:

“Apesar de a palavra reencarnação ainda ser usada em muitos textos sobre o buddhismo, o termo mais apropriado é ‘renascimento’, uma vez que no buddhismo não consideramos a existência de uma alma ou espírito destacada do corpo e que toma um novo corpo. No buddhismo é o Karma (o conjunto de impulsos que restam após a morte) que se manifesta novamente, e esta nova manifestação é que gera uma existência que tomando consciência de si mesma assume uma identidade. Esta nova identidade, embora muito semelhante em características a que a antecedeu, não é a mesma pessoa, nem a reencarnação de uma partícula permanente que transita por diferentes corpos. Há continuidade porém não de um EU particular”. [destaques meus]

Podemos facilmente perceber que a noção de reencarnação (ou renascimento, como queiram) para o Budismo também é muito diferente da noção espírita de reencarnação. Contudo, o que nos importa aqui é o termo Karma.

 Segundo este pensamento, após a morte, o que sobra é uma espécie de “resíduo espiritual” da pessoa que acaba de morrer (não sua individualidade e/ou consciência). Esse “resíduo” seria o resultado das suas imperfeições ou virtudes conquistas (isto é, o Karma). Tal “resíduo” renasceria novamente em um individuo que não seria a continuidade do anterior. A consciência de si próprio como um ser em específico seria destruída com a morte do corpo.

Por esta razão, é absolutamente impróprio usar o termo Karma num contexto espírita. O Espiritismo não adota a noção de Karma, nem renascimento, mas sim, a reencarnação. O Espiritismo ensina que a alma é a consciência e que ela persiste após a morte do corpo com sua individualidade, não como um “resíduo”. Que ela carrega suas imperfeições e virtudes e que reencarna novamente (sem deixar de ser quem é) para uma nova experiência de progresso e são essas experiências a serem vividas que chamamos de provas e expiações e não de Karma.

É certo que muitos espíritas usam o termo Karma apenas com finalidade de estética linguística. Mas, acho esse procedimento muito perigoso, tanto para o Espiritismo, quanto para o Budismo, pois introduz uma compreensão errônea  para um, quanto para outro.

 

 

 

 

 

Mídia e Espiritismo

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Muitos espíritas acreditam que a palavra Espiritismo foi criada por Allan Kardec. Contudo, hoje sabemos que isso não é verdade. Por volta do ano de 2010, através da lista de emails da Confederação Espírita Pan-Americana, por seu capítulo Brasileiro, foi divulgado um pequeno trecho que faria parte de um livro, escritor por José Carlos Ferreira Fernandes, onde este nos mostra que a palavra Espiritismo já existia antes das publicações de Allan Kardec.

Como exemplo, cita dois livros, ambos de 1854, em que consta a palavra Espiritismo, no original “spiritism”. Você pode ver aqui e aqui (digite na busca do lado esquerdo: spiritism, e clique em “ir”). Entretanto, ainda que a palavra “Espiritismo” não tenha sido cunhada por Kardec, é fato que a ele ficou associada. Mas, nem sempre foi assim.

No Brasil, entre as décadas de 1910-1930, houve uma verdadeira “guerra” entre Espíritas e Umbandistas a respeito do uso das denominações: “Espiritismo e Espírita”. O cisma era que alguns autores Umbandistas, especialmente em razão do preconceito social, defendiam que a Umbanda também era uma forma de Espiritismo e, por isso, teria amplo direito sobre o termo. É nesta época que algumas nomenclaturas existentes hoje em dia tomaram forma, como, por exemplo: Alto Espiritismo, baixo Espiritismo, Mesa Branca, Centro de Terreiro, etc.

Esses neologismos todos terminaram por prejudicar tanto a compreensão do que é Espiritismo, quanto à compreensão do que é Umbanda. Contudo, se estes autores protestassem um usufruto histórico do termo, teriam razão, já que não foi Kardec quem criou o termo. Isso não ocorreu e o tempo passou e a polêmica esfriou. A Umbanda entre as décadas de 1940-1970 cresceu vertiginosamente e se corporificou com uma identidade própria, não havendo mais necessidade de usar o termo “Espiritismo” para se firmar socialmente.

Segundo autores como Alexandre Cumino, o mesmo aconteceu com muitos grupos do Candomblé, que buscando uma melhor visão social nesse período de ascensão Umbandistas, começaram a se denominar também como Umbandistas. A diferença, em relação à trajetória espiritismo-umbanda, é que muitos grupos não se uniram apenas em nomenclatura, mas também em práticas e movimentos como o Umbandomblé surgiram e até hoje progridem.

Fiz essa rápida introdução apenas para deixar claro o motivo pelo qual Espiritismo, Umbanda e Candomblé (todas, doutrinas espiritualistas), no Brasil são, até hoje, confundidas com Espiritismo ou, ainda, como formas diferentes de praticar o Espiritismo. Contudo, ainda que hoje se possam visualizar todos esses segmentos em seus respectivos campos, é possível encontrar informações distorcidas a respeito, especialmente, na mídia.

Recentemente li uma matéria cujo título me impressionou: Líderes do espiritismo explicam rituais da Umbanda e do Candomblé, publicada no site da Globo News, em 22/10/2013. O título me chamou atenção, afinal, que autoridade tem os espíritas para falar sobre Umbanda e Candomblé? O espanto, porém, não ficou apenas no título. Vejamos alguns recortes da reportagem: 

“No Parque dos Orixás, no RJ, espíritas realizam cultos com finalidades variadas, como a de descarrego e até para resolver problemas amorosos”.

A primeira coisa a se pontuar é que o Espiritismo não cultua Orixás. Depois, os espíritas não possuem práticas como a do descarrego e, por fim, não fazem trabalhos para “resolver problemas amorosos”. Acredito mesmo que muitos líderes da Umbanda e do Candomblé diriam o mesmo a respeito de suas religiões… Contudo, isso deixo para eles dizerem.

Depois, lemos o seguinte:

“Na Estrada Velha da Serra da Estrela, na Região Serrana do Rio de Janeiro, há o acesso ao Parque Ecológico dos Orixás. É uma região onde seguidores do espiritismo, tanto da Umbanda quanto do Candomblé, se reúnem para realizar suas cerimônias religiosas”.

Os espíritas não realizam “cerimônias religiosas” de nenhuma espécie, especialmente em Parques.

Depois, isso:

“José Antônio Luiz Balieiro, presidente da Federação Espírita Brasileira, diz que o Parque Ecológico dos Orixás foi criado para o povo da Umbanda e do Candomblé fazerem seus trabalhos espirituais”. 

Isso me deixou duplamente confuso. Primeiro, o presidente da Federação Espírita Brasileira é Antonio Cesar Perri de Carvalho. Segundo, José Antôno Luiz Balieiro era (ou é, não sei) presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (não do Rio de Janeiro, onde se encontra o parque), e tudo isso me fez pensar: afinal, quem é que foi entrevistado?

Enfim, há tantas informações desencontradas a respeito do Espiritismo e da Umbanda nessa matéria que creio que nossos amigos Umbandistas também não ficariam satisfeitos, como, por exemplo, a referência de que na Umbanda não se cultua Orixás…

É preciso ter muito cuidado com o que se lê na internet, mesmo em grandes e renomados sites como este. Esse tipo de má informação apenas atrapalha e não raro, influi sobre muitas pessoas que, acreditando na confiabilidade e renome do site, aceita essas informações como verdadeiras.

Vamos, portanto, ficar bem atentos!

 

Catálogo Racional

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Acabo de ler um curto e interessante artigo a respeito desta obra de Allan Kardec tão pouco conhecida: Catálogo Racional – Obras para se fundar uma Biblioteca Espírita. 

Um dos pontos mais interessantes do artigo é quando os autores informam que a palavra Biblioteca, à época, tinha vários significados e que um deles poderia ser o de inventariar todos os livros sobre determinado gênero.

A partir disso, fiquei pensando: será que o objetivo de Kardec foi fornecer uma série de obras que abordassem o Espiritismo e cujo conteúdo fosse “seguro” aos adeptos ou ele apenas inventariou todas as obras que conhecia sobre o tema comentado particularmente somente as que havia lido?

De qualquer forma, o artigo é bem gostoso de se ler e bem simples e pode ser lido aqui. 

Não: seu filho não é uma criança índigo!

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Autêntico Índigo

                                                                Autêntico Índigo…

Por volta do ano 2005, um assunto intrigante começou a rodar pela rede social Orkut (R.I.P). Não demorou e apareceu também em blogs e sites especializados em temática espírita. Tal assunto era definido por duas palavras bastante enigmáticas: crianças índigo.

A ideia começou a ganhar fôlego e  personalidades de peso, como Divaldo Franco, entraram na onda. Começaram a surgir livros e DVD’s e rapidamente o assunto chegou às casas espíritas e se espalhou.

Muitas mães, eufóricas, ficaram, ao mesmo tempo, extasiadas e estarrecidas com a possibilidade de seus jovens filhos serem índigos e temiam o desafio que teriam pela frente para educá-los.

Mas, afinal, o que seria uma criança índigo?

A ideia que se propagou no Movimento Espírita Brasileiro não tem muito a ver com a ideia original, importada direta da terra do tio Sam – que nós esclareceremos logo mais.

Contudo, a versão “vendida” no Brasil naquele tempo (e às vezes ainda vejo-a desfilar lindamente por aí), era mais ou menos a seguinte:

– Espíritos mais elevados estão reencarnando na Terra. Essas crianças se revelam precocemente como de uma alta inteligência e algumas de excelentes qualidades morais. São capazes de dialogar com adultos como se fossem também adultos e isso seria o marco inequívoco de que a Terra estaria, em fim, adentrando uma etapa de regeneração.

A princípio a ideia era charmosa e cativou muitas pessoas. Afinal, que mãe babona não gostaria que seu filhinho fosse, na verdade, um lindo anjinho vindo de algum sistema solar distante ajudar a humanidade a superar-se?

E pelos próximos dois anos seguintes a ideia vendeu como água e muita gente se deixou embarcar nessa “viagem”…

Por volta de 2007, contudo, uma nova “versão” dessas ideias começaram a circular pelo Movimento. Em suma, ela dizia mais ou menos o seguinte:

– Bem, algumas crianças índigo são mesmo espíritos muito adiantados intelecto/moralmente, mas alguns desses espíritos podem se sentir pressionados a viver num mundo que não compreende seus elevados pensamentos. Ao chegarem à adolescência, podem se tornar rebeldes, usar drogas e, até mesmo, matar os pais.

Então, uma nova onda de preocupação avassalou o Movimento. Se, por um momento, se desejou ter um índigo em casa, agora a coisa invertia e era melhor ficar bem atento. Essa neurose coletiva fez surgir uma série de artigos terapêuticos visando ensinar aos pais como educar seus filhos índigos. A indústria mudou de foco: da euforia, para o medo. E funcionou.

Em meados de 2007, contudo, um grupo de espíritas sérios resolveu jogar água na fogueira e colocar o assunto em termos claros: a ideia das crianças índigo era uma tolice e seu objetivo era apenas fazer dinheiro. Havia outro lado dessa história que ninguém contava (por ignorância ou omissão – você decide), que simplesmente revelava a fragilidade dos argumentos originais de tal ideia.

Rita Foelker, Dora Incontri, Heloísa Pires, Paulo Figueiredo, entre outros, publicaram uma edição especial do jornal “Mensagem”, originalmente publicado por Herculano Pires. Esta edição, em comemoração aos 150 anos do Espiritismo, continha uma série de artigos em que estes autores demonstravam por que a ideia de crianças índigo era incoerente com a proposta espírita e, mais, mostravam a origem dessa ideia.

O artigo teve efeito de uma bomba e, repentinamente, os grandes do espiritismo que falavam de boca cheia no tema se calaram até quase não tocarem mais no assunto. Contudo, o estrago estava feito e, ainda hoje, esse tema aparece, principalmente para o iniciante, que fica confuso ao tentar entendê-lo.

Vou tentar extrair do artigo os pontos principais em forma de perguntas e respostas, onde se poderá ver com clareza o absurdo por trás desta ideia. É importante que o artigo seja lido, pois isto é apenas um pequeno recorte interpretativo.

Por que crianças índigo?

Índigo ou anil é um tipo de azul bem escuro. A vidente Americana Nancy Ann Tappe, dizia que algumas crianças tinha uma aura de cor azul bastante escura.

Como essa ideia surgiu?

Por volta de 1989, um economista Americano chamado Lee Carroll, foi avisado por uma sensitiva que era acompanhado por uma entidade extraterrestre chamada: Kryon.

Lee passou a canalizar (termo que os Americanos usam para as pessoas que supostamente estabelecem comunicações com E.T’s) a entidade e juntamente com sua ex-esposa, Jon Tober, fundaram um grupo esotérico onde as mensagens de Kryon circularam até se transformarem em livros e serem vendidos pelo mundo.

E quem é Kryon?

O site oficial do grupo o define assim:

 “Kryon é o mais evoluído ser de luz a que a Terra jamais teve acesso. Proveniente do ‘Sol Central’, com a função primordialmente técnica ligada ao ‘serviço eletromagnético’. Foi enviado por um grupo de ‘Mestres Extrafísicos’, chamado ‘A Irmandade’. Veio dessa vez para reordenar a ‘rede magnética planetária’, visando uma série de mudanças magnéticas no eixo da Terra, que se encerrará no ano de 2012”.

Entendeu alguma coisa? Eu também não…

O que Kryon ensina?

“Os seres humanos que vivem na Terra eram anjos muito evoluídos que assinaram um contrato para vivenciar uma experiência humana no planeta Terra, motivo pelo qual seríamos honrados e celebrados em todo o Universo.”

E onde entra dinheiro nisso tudo?

Segundo Kryon, as pessoas que nasceram antes de 1987 não são índigo (como eu). Contudo, todavia, entretanto… Nem tudo está perdido! Você pode se tornar um índigo se você tiver intere$$e.

O grupo Kryon criou (?) uma empresa “A Energy Extension In-corporation”, que através dos métodos: “Calibra-tion Lattice®” e “EMF Balancing Technique®”, de alguma forma (não pergunte como!), conseguem transformar não-índigos em índigos e, claro, isso é pago!

Se tudo que foi dito até aqui não tiver sido suficiente para mostrar a você a furada que é essa ideia, considere que a versão Brasileira está toda maquiada e alguns termos mais próximos foram inseridos, como chamar Lee de médium, etc.

Então, por que personalidades espíritas promoveram essas ideias?

Particularmente, acredito que devido ao entusiasmo sem conhecimento de causa. Pegaram essa versão espiritizada das crianças índigo (em que até se poderia fazer um paralelo com o capítulo 29 de A Gênese, de Allan Kardec), e começaram a divulgá-la como uma grande novidade. Mas, como vimos, a coisa não era bem assim.

Fica ainda o alerta: não é porque um médium famoso, um palestrante ou mesmo um espírito divulga uma ideia, que ela seja verdadeira. É preciso, antes de tudo, estudar!

Para completar, a vidente Nancy Ann Tappe, que criou o termo “crianças índigo”, diz o seguinte a respeito delas:

 “Todas as crianças que mataram colegas de escola ou os próprios pais, com as quais pude ter contato, eram índigos. Eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo. Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá-lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo”.

É isto que você aprendeu no Espiritismo sobre o comportamento dos espíritos mais adiantados?

Portanto, digo sem receio a todas as mães: Seus filhos não são índigos. Deixem essa fantasia de lado.

A santidade de Chico Xavier

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Para muitos espíritas e não espíritas, Chico Xavier, talvez, pudesse ser tratado por São Chico Xavier, caso pertencesse a Igreja (que, alguns mais maldosos, dizem nunca ter abandonado). Há, inclusive, um livro cujo título reforça a ideia de santidade no médium.

O interessante, a esse respeito, é que Chico sempre fez questão de se colocar como uma pessoa comum, cheia de dificuldades e defeitos. Mas, por certo, os mais chegados a santificá-lo viram nessas declarações atestados de humildade e, por consequência, de santidade.

É preciso dizer que outros também atribuem algum significado sagrado à sua mediunidade. Tais pessoas talvez se surpreendessem ao saber que o médium foi, mais de uma vez, vítima de mistificações e que o correr dos anos, as obras assistenciais, bem como a proteção e tutela de Emmanuel não o livraram de tais imprevistos.

É ele próprio quem nos informa:

35 – Durante este tempo, foi você vítima de mistificação alguma vez?

– Muitas.

36 – E até hoje isso acontece ou pode acontecer?

– Sim.

37 – Por que sucede isso a você, que já psicografou quase cem livros (obs.: Esta entrevista se deu em 1967).

– Decerto que o Mundo Espiritual permite que eu passe por essas provações para mostrar-me que receber livros dos Instrutores Espirituais não me cria privilégio algum, que estou apenas cumprindo um dever e que sou um médium tão falível quanto qualquer outro, com necessidade constante de oração e trabalho, boa vontade e vigilância. [No Mundo De Chico Xavier – Elias Barbosa, 2º edição, 1975, .p 31 e 32]

Kardec, em O Livro dos Médiuns, item 238, já nos alertava sobre isso:

“Ninguém está obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Espírito mentiroso. O melhor médium se acha exposto a isso, sobretudo, no começo, quando ainda lhe falta a experiência necessária, do mesmo modo que, entre nós homens, os mais honestos podem ser enganados por velhacos”.

Como se pode ver, o próprio admite ter sido enganado várias vezes, o que, aos meus olhos, não lhe tira os méritos, pelo contrário, aumenta-os, uma vez que admitir as próprias imperfeições não é algo fácil, especialmente nestes casos, em que se santifica uma pessoa. Chico parecia lidar muito bem com isso, já os Chiquistas…

E no que tange a sua possível santidade, ele nos diz:

40 – Ignorará você a popularidade que os livros mediúnicos lhe trouxeram?

– Sei que eles me trouxeram muita responsabilidade. Quanto ao caso da popularidade, sei que cada amigo faz de nós um retrato para uso próprio e cada inimigo faz outro. Mas, diante do Mundo Espiritual, não somos aquilo que os outros imaginam e sim o que somos verdadeiramente. Desse modo, sei que sou um espírito imperfeito e muito endividado, com necessidade constante de aprender, trabalhar, dominar-me e burilar-me, perante as leis de Deus. [destaque meu]

Achei brilhante essa resposta. Como toda figura notória, ele inspirava de um lado o sentimento de santidade e, de outro, o sentimento de farsante. Estes sentimentos ainda existem e, creio, se intensificaram no imaginário popular após a sua morte.

Contudo, do meu ponto de vista, prefiro ficar com o Chico homem e todos os defeitos que reiteradamente ele afirmava possuir. A sua maior obra, penso, é sua própria vida. Ela foi a prova viva de que todos os encarnados podem lutar contra suas imperfeições e, ao mesmo tempo, produzir um grande trabalho. Que o fato de ser médium não lhe privou de privações. Que seu trabalho no bem não o fez um tutelado dos céus. Que todos sofremos, choramos e sorrimos e que, talvez, como ele, possamos vencer em nossa encarnação.

“O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia, todos o admiram como se fora um fenômeno”. O Livro dos Espíritos, questão 895.