Sobre o livre-pensar

É muito comum em depoimentos, artigos e eventos promovidos pela Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), o uso da expressão livre-pensar para designar a atitude que os cepeanos têm diante do Espiritismo. Faz parte, inclusive, do slogan da entidade: kardecista, progressista e livre-pensadora, como lemos a seguir no texto extraído do site oficial da confederação:

“Livre-pensadora porque convida seus integrantes e as pessoas em geral a gozarem, em sua plenitude, do direito ao livre exame de todas as ideias, sem qualquer dogmatismo, e ao aproveitamento de toda reflexão, com critérios e métodos dentro e fora do Espiritismo”.
“Liberdade de pensamento, de expressão e crítica são condições necessárias para um espírita autêntico poder se expressar. São direitos irrenunciáveis que a CEPA garante a todas as pessoas a ela vinculadas.” [www.cepainfo.org].

Mas o que é esse livre-pensar e como ele se situa no contexto da cultura espírita? Qual o seu significado para a filosofia espírita?

TRIUNFO DA RAZÃO

O livre-pensar ressurge de modo triunfante no final da Idade Média, com o advento da modernidade, inaugurada por grandes pensadores e cientistas, como Copérnico, Galileu, Kepler, Descartes, Bacon, pelos humanistas do Quattrocento, os renascentistas e, sobretudo, pelos Iluministas do Século das Luzes.

Foi o Humanismo, filho dileto da Modernidade, o grande responsável pela mudança de foco e de atitude frente às questões do homem e do mundo. No lugar da fé cega, a razão. O livre-pensar ao invés do dogmatismo. A Filosofia em oposição a Teologia. O ser humano como a razão de ser de qualquer atividade humana, o centro de tudo, mudando-se assim o eixo de análise, o eixo de importância na compreensão da realidade humana. Tal modo de pensar coincide com o fim da Idade Média, do feudalismo e o triunfo da burguesia. Os tempos são outros…

O livre-pensamento se desenvolve no seio da nascente modernidade, como parte de uma atitude universalista de independência, autonomia e autodeterminação diante da realidade, em oposição a uma concepção dogmática e teológica que dominou a filosofia e o saber durante séculos. O livre-pensar é humanista e anticlerical por natureza porque significa uma nova atitude diante do homem e do mundo, amparada pela razão e a experiência, pelo reto pensar. A razão é a luz que ilumina a consciência e a liberta das trevas da ignorância religiosa, cavando assim um fosso profundo entre a ciência e a religião.

KARDEC E O LIVRE-PENSAR

De formação humanista e iluminista, o pedagogo Denizard Rivail, impregnado pelo espírito científico de seu tempo (o positivismo), estruturou uma filosofia espiritualistaonde a observação, o livre exame, a razão, numa palavra, o livre-pensar, são componentes fundamentais em seu processo de construção. É interessante observar o que Allan Kardec tem a dizer sobre o livre-pensar.

Em um artigo sobre o avanço do movimento espírita francês, Kardec faz uma interessante análise das duas correntes antagônicas, o espiritualismo e o materialismo, “que dividem a sociedade atual”. As nuances dessas duas correntes são classificadas pelo fundador do Espiritismo em 15 categorias. Os indiferentes, panteístas, deístas, crentes progressistas etc. são algumas das categorias. O que nos interessa é a 14ª categoria, a dos livres-pensadores:

“14º – Os livres-pensadores, nova denominação pela qual se designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam atrelados pelo culto em que o nascimento os colocou sem o seu consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto à mais absoluta incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre-pensamento; todo homem que não se guia pela fé cega é, por isto mesmo, livre-pensador. A este título os espíritas também são livres-pensadores.”

Kardec faz uma ressalva e descarta o sectarismo, os “radicais do livre-pensamento”, que deveriam ser incluídos na categoria dos materialistas por sistema, denominação equivalente ao cético agnóstico e sistemático, portanto fanático como qualquer religioso fundamentalista:

“Mas para os que podem ser chamados os radicais do livre-pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, a bem dizer, exclusiva; para estes, ser livre-pensador não é apenas crer no que vê: é não crer em nada; é libertar-se de todo freio, mesmo do temor de Deus e do futuro; a espiritualidade é um estorvo e não a querem. Sob este símbolo da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas e, coisa singular, é em nome desse símbolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, que atiram pedra a quem quer que não pense como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livres-pensadores, como entre os que se dizem filósofos. Eles se dividem naturalmente em: Livres-pensadores incrédulos, que entram na 5ª categoria [os materialistas por sistema]; e livres-pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional.” (Allan Kardec – Olhar Retrospectivo Sobre o Movimento Espírita – “Revista Espírita” (FEB), janeiro de 1867, grifo meu).

O DESEJO DE KARDEC

O que interessa mesmo ressaltar é a visão de Kardec acerca do livre-pensar, desenvolvida de forma didática, incisiva e bem sintética, captando e expondo o espírito da Doutrina Espírita: não se sujeitar a nenhuma opinião em matéria de religião e de espiritualidade ou de alguma prática religiosa qualquer. Ser eclético porque tal atitude corresponde ao livre-pensamento. Não se guiar pela fé cega. Segundo Kardec, “os espíritas também são livres-pensadores”.

Ao admitir o livre-pensar como a atitude autêntica e necessária diante das ideias, a CEPA se alinha ao desejo de Allan Kardec, de fazer do Espiritismo um movimento onde a liberdade de consciência seja uma de suas marcas registradas, em suma, um movimento de livres-pensadores.

Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, é fundador e editor do site PENSE – Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e articulista dos jornais Opinião (Porto Alegre-RS) e Abertura (Santos-SP). É autor do livro “Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita” e dos livros em edição digital: “Racismo e Espiritismo”; “Milenarismo e Espiritismo”; “Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade (ensaio biográfico)”; “Conceito Espírita de Evolução e Os Quatro Espíritos de Kardec”. E-mail: eugenlara@hotmail.com

Fontehttp://www.viasantos.com/pense/arquivo/1444.html

Obs.: Como espírita, sem dúvida a expressão “livre-pensador” me representa muito bem, embora não me sinta, de modo algum, vinculado a alguma entidade, seja FEB, seja CEPA.

Ao longo dos anos, percebemos que responder aos contraditores, quase sempre munidos de paixão pessoal, nos custava tempo e energia que poderiam ser aplicados em algo mais útil. Por essa razão, não respondemos ataques. Ofensas serão deletadas.

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