Aspecto científico do sobrenatural

Alfred Russel Wallace

“Eu tenho razões para supor que podem haver, e provavelmente há, outras (e talvez infinitamente variáveis) formas de matéria e modos de movimento etéreo além daquele que os nossos sentidos nos permitem reconhecer, com base na primeira parte deste artigo. Nós precisamos então admitir que devem haver, e possivelmente há, organizações adaptadas para agir sobre e a receber impressões destas formas de matéria.

No universo infinito devem haver possibilidades infinitas de sensações, cada uma tanto distinta das demais como a visão o é do paladar ou da audição, e tão capaz de estender a esfera de conhecimento e o desenvolvimento do intelecto daquele que a possui como o sentido da visão ao ser adicionado aos demais sentidos que possuímos. Seres de uma ordem etérea, se existirem, provavelmente possuem um ou mais sentidos da natureza acima indicada, o que lhes permite uma compreensão maior da constituição do universo e uma inteligência proporcionalmente ampliada a guiar e dirigir para fins especiais aqueles novos modos de movimento etéreo com os quais eles estariam aptos a lidar.

Cada faculdade que eles possuem deve proporcionar os modos de ação no éter. Eles devem ter uma capacidade de movimento tão rápida quanto a luz ou a corrente elétrica. Devem ter uma capacidade de visão tão aguda quanto a dos nossos mais poderosos telescópio e microscópios. Devem ter um sentido de alguma forma análogo aos poderes de um dos últimos triunfos da ciência, o espectroscópio, e por meio dele são capazes de perceber instantaneamente a constituição íntima da matéria em cada uma de suas formas, seja em seres organizados ou em estrelas e nebulosas.

Tais existências, possuidoras de poderes inconcebíveis para nós, não seriam sobrenaturais, a não ser em um sentido muito limitado e incorreto do termo. É se tais poderes são postos em ação de uma maneira a serem percebidos por nós, o resultado não seria um milagre, no sentido em que o termo é empregado por Hume ou Tyndall. Não haveria qualquer “violação de uma lei da natureza”, nenhuma violação da “lei de conservação da energia”. Nenhuma matéria ou força seria criada ou aniquilada, mesmo que assim nos parecesse.

Em um universo infinito, o grande reservatório de matéria e de força deve ser infinito; e o fato de um ser etéreo ser capaz de exercer força-extraída talvez do éter sem fronteiras, talvez das energias vitais dos seres humanos – e fazer seus efeitos visíveis a nós como uma aparente ‘criação’ seria um milagre tão real quanto o perpétuo crescimento de milhões de toneladas de água do oceano, ou o perpétuo exercício de força animal sobre a Terra, os quais nós apenas recentemente ligamos ao sol, e talvez de forma remota o sejam a outras e variadas fontes perdidas na imensidade do universo.

Tudo continua sendo natural. As grandes leis da natureza ainda manteriam sua inviolável supremacia. Nós devemos apenas confessar, como um moderno homem de ciência, que “nossos cinco sentidos são nada mais que instrumentos toscos para investigar o imponderável”, e deveríamos ver um novo e mais profundo significado nas muito citadas mas pequenas palavras cuidadosas do grande poeta, quando ele nos lembra que “há mais coisas no céu e na Terra que supõe a nossa filosofia”.

Alfred Russel Wallace

 

 

Ao longo dos anos, percebemos que responder aos contraditores, quase sempre munidos de paixão pessoal, nos custava tempo e energia que poderiam ser aplicados em algo mais útil. Por essa razão, não respondemos ataques. Ofensas serão deletadas.

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